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Por Jaime C. Patias
Simpósio Ecumenismo e Missão - Conic

Simpósio Ecumenismo e Missão – Conic

“Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.”
(Sl 133:1)
Não consigo ver sentido em uma religião que divide e separa muito mais do que une e religa. Enquanto cristãos deveríamos estar ligados uns aos outros e, consequentemente à todos, pelo amor e pela pregação de Cristo. Já não bastam tantas e diferentes denominações, ainda temos que brigar, competir, viver separados, não dialogar entre nós…?
Como teólogo cristão ainda acredito no Amor de Deus, e no diálogo, e tenho esperança de que eles prevalecerão.
 “O amor será nosso maior testemunho”, afirma pastora luterana
O Simpósio Ecumenismo e Missão – Testemunho Cristão em um Mundo Plural, além de criar um ambiente de convivência e diálogo é um momento forte de reflexão e partilha à luz da Palavra de Deus. Promovido pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), o evento reúne nos dias 21 a 24, cerca de 100 pessoas entre leigos(as), consagradas e ordenadas nas diversas Igrejas cristãs, em Vargem Grande Paulista (SP).
Na manhã deste sábado, 23, a pastora luterana Dr. Wanda Deifelt, professora de teologia no Luther College em Decorah (IA) – EUA, fez uma leitura sobre metodologias missionárias a partir dos Atos dos Apóstolos. Acredita-se que o livro foi escrito entre os anos 80-90 pelo mesmo autor do Evangelho de Lucas e narra o nascimento, crescimento e desenvolvimento da igreja. Segundo a professora, o texto apresenta desafios e possibilidades para a missão.
Ao avaliar a história da missão na América Latina, Wanda destaca “críticas severas ao modelo missionário seguido, com a associação entre a cruz e a espada, e a cruz imposta aos povos indígenas e missionários”. Hoje o cristianismo predomina nos nossos países. Para a biblista, neste terceiro milênio, “cabe-nos fazer uma avaliação sobre a diferença que a presença do cristianismo tem causado na vida das pessoas. Creio que as igrejas já se deram conta que a preocupação única pela salvação da alma já não é impulso suficiente para a missão. Este fim já não justifica mais os meios. Cada vez mais as igrejas se apercebem que a prática de Jesus não era só salvar a alma do mal, mas também pregar a ressurreição do corpo e anunciar que o Evangelho é boa notícia no presente. Também o ‘como’ da missão deve ser motivo de reflexão”.
Na sequência, Dr. Wanda teceu comentários sobre o livro dos Atos dos Apóstolos cujo autor tenta pintar uma imagem um tanto uniforme e otimista do crescimento do cristianismo. A pastora selecionou cinco exemplos de desafios missionários presentes no livro que, segundo ela, continuam sendo atuais. Eles mostram as possibilidades e discrepâncias no agir missionário.
A presença invisível das mulheres: pelas narrativas dos evangelistas junto com os discípulos havia algumas mulheres. Apesar de o texto mencionar os homens, com exceção de Maria, a mãe de Jesus, as demais mulheres não são identificadas. Uma leitura mais criteriosa porém, mostra que as mulheres também haviam tido uma presença no ministério de Jesus, fazendo parte do círculo mais próximo de amizade. Elas haviam estado com Jesus até o fim e sido as primeiras a testemunhar sua ressurreição.
As disparidades socioeconômicas: muitos peritos na área de missiologia tomam o texto de At 4, 32-35 como uma explicação para o sucesso e expansão do cristianismo. Quem possuía casas e terras vendia sua propriedade e o valor correspondente era distribuído aos que tinham necessidade. Tinham tudo em comum. A caridade é tida como um dos grandes motivadores para a adesão de novos membros à comunidade cristã e certamente nos provoca nestes tempos de gritante disparidade social onde, ao invés da solidariedade, o Evangelho de Cristo tem sido reduzido à teologia da prosperidade. O tom otimista da história de sucesso podem nos impedir de ver a complexidade das questões sociais já nos tempos bíblicos. Por muito tempo se entendeu diaconia como sinônimo para assistência social, como caridade que é oferecida aos menos favorecidos. Nos EUA, muitos defendem que os ricos devam ficar mais ricos para então poder fazer mais caridade.
Na América Latina se fez muita missão a partir da assistência social foi de grande valor para um modelo de diaconia, de serviço. A pergunta para a missão hoje é se este modelo ainda serve. Será que o modelo da economia solidária serve como um modelo alternativo ao da generosidade dos ricos para com os pobres? Por que não pensar em participação e sustentabilidade ao invés de dependência e assistencialismo.
A fluidez de gênero e raça/etnia aparece no episódio da conversão do etíope, eunuco, alto oficial de Candance. Muitos exegetas interpretam o texto como parte da expansão missionária relatada por Lucas. O episódio, porém, chama a atenção para as questões de gênero, étnico/raciais muito presente na sociedade atual.
A igreja adormecida: os jovens são mencionados várias vezes no livro de Atos. O exemplo mais contundente do papel dos jovens na missão se encontra em At 20, 7-12. Paulo se encontra em Trôade e a congregação se reúne para partir o pão com ele, mas Paulo se estende com sua pregação até a meia-noite. “Um jovem chamado Êutico, que estava sentado numa janela, adormecendo profundamente durante o prolongado discurso de Paulo, vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo, e foi levantado morto (At 20, 9).” Paulo desce, abraça o rapaz e declara que ele está vivo. Sobe outra vez ao cenáculo, parte o pão e continua pregando até o romper do dia.
Esta passagem revela um problema simultaneamente antigo e atual: a Igreja com seus longos discursos e dogmas não é atraente para os jovens. A ação missionária com jovens em nossos dias deveria ser analisada. O sono do jovem deveria abrir nossos olhos. Por outro lado, quem adormece sonha. O desafio missionário me parece evidente e nos instiga a perguntar: o que faz o jovem sonhar? Como seus sonhos podem ser transformados em realidade?
O diálogo inter-religioso: o discurso de Paulo no areópago (At 17,16-31) é talvez o melhor exemplo do diálogo entre o cristianismo e as demais religiões. O cristianismo tem uma capacidade incrível de adaptar e cooptar – incluindo aspectos de outras religiões e práticas, o que provavelmente atesta para a sua sobrevivência e sucesso. Mas nisso há também uma tensão. Os fins ou os meios? Exclusivismo, inclusivismo ou pluralismo?
No Brasil, percebe-se que dentro da mesma comunidade coexistem diversas expressões religiosas que nem sempre tem a mesma matriz. Por exemplo, a mulher luterana vai à benzedeira, o católico também é do candomblé, a anglicana também é kardecista. Estas múltiplas fidelidades merecem uma atenção maior das igrejas em termos de missão. A gente acha que a Igreja vai dialogar com outras religiões, mas às vezes elas já moram na própria casa.
Os desafios missionários hoje são tão intensos como eram no início do cristianismo. Mas como podemos identificar e responder adequadamente a estes desafios? Assim como a missão é um movimento para fora, da comunidade cristã para o mundo, ela também tem uma dimensão para dentro, dos desafios que o mundo apresenta para a reflexão e prática cristãs.
Como humanidade, nos damos conta que a diversidade é dom de Deus. Descobrimos a nossa capacidade criativa e criadora, que nos permite pôr em prática os nossos sonhos. Mesmo discordando devemos nos manter em diálogo. E por fim, amaremos aos nossos próximos como amamos a nós, e a Deus acima de todas as coisas. Não os dogmas, os mitos ou os ritos, mas o amor será nosso maior testemunho.
Promovido pelo CONIC, em parceria com a PUC-PR e as comissões de Ecumenismo, Laicato e Missão da CNBB, o Simpósio tem entre outros objetivos, reunir propostas para a elaboração de um documento com orientações para a vivência do ecumenismo no Brasil.
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