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Edézio Peterle – A religião está ligada à vida do homem desde a antiguidade. Alívio para os sofrimentos e esperança que a morte não seja o fim da vida são algumas questões que o homem procura constantemente responder. As crenças religiosas apresentam-se como meio de se alcançar as explicações que se almeja. Mas qual é o limite entre libertação e alienação? Em entrevista ao Universo Ufes, o professor e doutor em Filosofia da Religião Edebrande Cavalieri explica qual a origem das crenças religiosas, esclarecendo essa busca do homem por respostas sobre sua existência. Ele salienta a importância da religião na vida das pessoas e a responsabilidade que ela assume ao apresentar-se como meio de responder as dúvidas existentes.

Doutor em Filosofia da Religião Edebrande Cavalieri.

Por que a religião está ligada ao homem? 

Religião é um dado cultural. Não há nenhuma cultura em que a religião esteja isenta. Talvez seja, das práticas culturais, a mais antiga. Pode até ser dito, antes mesmo da organização política. E decorre de algumas questões que o homem faz: de onde venho? Pra onde vou? A questão da origem, do fim e do sentido da vida. Para que viver? Que sentido vou dar à vida? As religiões, em suas mais diversas formas, acabam remetendo às questões relativas à origem, elas nascem como forma de responder essas perguntas.

O que leva as pessoas a buscarem por uma religião?

A própria sensação de fragilidade. Dentre os seres vivos, talvez o mais frágeis deles seja o homem. A busca pelo sentido da vida, os limites que a vida nos impõe relativos à doença, às necessidades materiais. Acreditava-se, num tempo atrás, que a religião era para as pessoas pobres. Falava-se da Teologia da Prosperidade. Os limites da vida, doença, dor, sofrimento, acaba remetendo as pessoas a buscarem a religião.

O que as pessoas esperam alcançar?

A esperança e a expectativa são outros sentimentos que move tantas pessoas. Esperamos que nosso fim último não seja a morte, que haja um elixir, algo que nos mantenha eternamente. Não esperamos que tudo se acabe. Esperamos nos eternizar, e, às vezes, até ter filhos se torna uma forma de eternizar. A produção cultural, a produção artística são formas de garantir a eternidade. Imagina-se uma alma para sobreviver, porque o corpo apodrece. A esperança para que as coisas não acabem com a morte.

Que tipo de perguntas ou dúvidas as religiões respondem?

A ordem religiosa é distinta da ordem científica, mas as perguntas muitas vezes são semelhantes e as respostas são diferentes. Então, você pergunta por que o sofrimento, o mal? A ciência vai trabalhar em uma direção explicativa, já a religião tenta recorrer a uma outra descrição, aos mitos, por exemplo. E descobre que nós sofremos porque alguém cometeu uma falha lá na antiguidade, sofremos com esse mal que passou de geração em geração. As formas como as religiões respondem essas perguntas são um problema muito grande, porque eu posso dizer alguma coisa como se fosse uma verdade científica, mas não é bem assim. As respostas das religiões, as respostas que os líderes religiosos fornecem para as pessoas, deveriam ser bem cuidadas. Às vezes fala-se o que não deveria ser falado. Promete-se o que não poderia ser prometido. Então, há uma irresponsabilidade. As lideranças religiosas têm que ser éticas e responsáveis, para não produzir uma expectativa que não vai se realizar e aí se recoloca a culpa sobre as próprias pessoas.

O que faz esse aspecto da vivência humana tornar-se tão universal e persistente? 

No século XIX imaginava-se que a religião iria desaparecer. A filosofia defendia muito isso através do Positivismo de Augusto Conte. Estava muito ligado à área tecnológica, científica. A ciência seria o substituto da religião, a redenção de todos os males. A religião é uma questão de ordem pública. Lida com alguns aspectos da vida humana que poderíamos chamar de misteriosos, relativos à motivação, ao lado espiritual das pessoas, a vivência. Aspectos que a ciência e a tecnologia não lidam. A nossa cultura está profundamente marcada por isso. Você pode não ter um Deus, mas aí você cria outras formas de expressão também muito fortes.

No que a crença religiosa difere de outras? 

Os cientistas também têm que acreditar. Eles têm que acreditar que aquela hipótese que vai testar seja verdadeira. Ele acredita na hipótese que está fazendo.  Não faz uma hipótese qualquer. É uma crença. Nós somos movidos por crenças. A crença religiosa não se remete ao dado imediato, mas também a um dado transcendente. As crenças religiosas, na sua maior parte, remetem a essa dimensão além-morte, além desse mundo transcendente.  Espera-se a felicidade. A religião acaba remetendo à felicidade. Atinge um núcleo essencial da pessoa. Segundo Aristóteles, todo mundo anseia a felicidade, o conhecimento e a justiça. O homem aspira ao conhecimento, à verdade e à justiça. Ninguém quer ser infeliz e viver na mentira.

Há, em todas as religiões algo de etéreo, superior, transcendental a ser alcançado ou seriam apenas formas de sociabilidade e encontros?

O próprio Cristianismo coloca essa questão. Como vai ser isso? Nesse mundo às vezes a gente busca e espera alcançar uma resposta. As religiões têm esse discurso, se produz uma crença, a gente tenta acreditar nisso, acreditar naquilo. Existem promessas. Aí vem a fé. No Cristianismo ou você acredita ou não. A religião envolve a sociabilidade. A gente não vai sozinho, a religião não conduz a trabalhar sozinho, numa perspectiva individualista.  O outro sempre estará aí. A sociabilidade está muito entrelaçada na vida das pessoas. O homem é um ser social. A religião se nutre da sociabilidade. Em termos da religião como dado cultural, ela remete a essas questões transcendentais. Há questões que escapam às respostas.

Fonte Consultada: Universo Ufes

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