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Por Fernando Marin

Professor Fernando Marin

Professor Fernando Marin

   Este ano, pude participar da Semana de Estudos Teológicos, patrocinada pela Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, onde se discutiu a Conferência do Nordeste, que aconteceu em 1962 em Recife, e que teve como tema “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”.

 

   Apesar dos 49 anos da Conferência, pude notar que pouco caminhamos em relação ao ecumenismo e, principalmente, quanto às questões sociais, onde a igreja ainda não conseguiu atuação que desse resposta aos problemas que assolam a sociedade brasileira, principalmente nas camadas mais pobres da população.

 

   Em 1962, 167 delegados de 16 diferentes denominações debateram temas alusivos às questões sociais da época, chegando a propostas, cuja maioria não chegou a ser implantada, até mesmo devido ao golpe de 1964. 

 

   Trazendo para hoje essa discussão, podemos constatar que, apesar da nossa unidade em Cristo, como igreja somos bastante desunidos, já que atualmente sequer dispomos de um fórum adequado para discutirmos em conjunto eventuais sugestões que visassem a evoluções sociais, ou de um contato maior com órgãos governamentais, ou, ainda, com as mais diversas denominações, para que pudéssemos estabelecer ações conjuntas que viessem a mudar a realidade vigente na área social brasileira.

 

   Afinal de contas, qual seria a missão da igreja entre os que estão fora dela? Qual seria a responsabilidade cristã frente ao desenvolvimento econômico? E ante às questões sócio- ambientais?

 

   Na falta de um organismo onde pudéssemos (igreja) discutir esses assuntos, o que nos resta é refletir sobre o que tem acontecido no meio eclesial.  Afinal, o que significa a afirmação de Jesus quando Ele diz que veio para evangelizar os pobres? 

 

   Realmente, nos parece que há, hoje, uma grande dificuldade no diálogo religião x sociedade, o que tem deixado a igreja sem condições de cumprir com o seu papel nessa área. Por outro lado, muitas vezes vemos a religião assimilando a cultura da sociedade, considerando como naturais questões tratadas nos evangelhos como inaceitáveis, enquanto que a igreja permanece  em uma posição estática, observando a tudo isso de ‘mãos amarradas’, sem condições de ação devido a essa falta de união e a uma resistência de muitos ao ecumenismo como melhor forma de discussão desses temas. Na verdade, hoje podemos afirmar que a igreja sequer possui uma pauta social para discutir com o governo, até por falta de uma liderança que pudesse tomar essa iniciativa.

 

   Na “vida de igreja, aprendemos que, quando entregamos nossas vidas a Jesus, passamos a ser “santos”, ou seja,” separados do mundo”, e muitos entendem isso como um alheamento às questões exteriores ao âmbito da igreja local, numa posição de que não tem responsabilidade e nem  nada a fazer pelos que não pertencem à igreja. Salvo algumas ações isoladas, não vemos uma grande atitude interdenominacional que visasse a mudanças nesse pensamento de ‘afastamento ‘ do mundo e das suas questões que envolvem a todos nós.

 

   Mas, não é isso que nos ensina Jesus. Afinal, Ele nos disse que foi escolhido por Deus para “levar boas notícias aos pobres”, para “anunciar a liberdade aos presos” , para “dar vista aos cegos” , para “libertar os que estão sendo oprimidos” e “anunciar que chegou o tempo em que o Senhor salvará o Seu povo” ( Lucas 4 . 18,19 NTLH). Somos a boca e os braços de Jesus aqui nesta terra, e cabe a nós cumprir essa missão deixada pelo Mestre.

 

   Muitos, às vezes, preferem espiritualizar essas palavras, afirmando que Cristo se referia ao pecado. Porém, podemos, também – e por que não, dar sentido social a elas, até porque o próprio Jesus dirigiu o seu ministério aos pobres e desfavorecidos da sua época. Afinal, quem são os pobres de hoje? E os presos? Seriam apenas os encarcerados, ou todos aqueles deserdados da ordem política e social? Quem seriam os cegos de hoje? E os oprimidos, não seriam todos aqueles marginalizados sociais, os que vivem excluídos da boa educação, de um sistema que pudesse oferecer empregos e salários dignos, de um sistema de saúde que realmente oferecesse um atendimento ideal?

 

   Cito, aqui, as palavras do prof. Nicanor Lopes , que disse que “quando nos deparamos com um texto bíblico que nos atrapalha, incomoda, damos um sentido espiritual a ele e passamos adiante.”

 

   Não, não podemos simplesmente passar adiante dessas questões que tanto tem nos incomodado sem, pelo menos, discuti-las e tomarmos iniciativas que venham a promover melhorias na qualidade de vida, cumprindo, assim, as determinações deixadas por Jesus. Não podemos fechar nossos olhos para tudo o que nos rodeia, numa posição egoísta e confortável, nos alienando à realidade, sob pena de estarmos contribuindo para a miséria, a fome, a pobreza cultural, a destruição gananciosa do meio ambiente, sob pena de irmos de encontro à Palavra de Deus da qual, como igreja,  deveríamos ser guardiões. É tempo de agirmos!

Fernando Marin

Bacharel em Teologia pela Universidade Metodista de São Paulo, onde atua como Monitor Presencial, do curso de Teologia, no Polo Macaé, pastor batista, Pós-Graduado em Planejamento, Implementação e Gestão de Ensino à Distância, pela Universidade Federal Fluminense, professor na CEMAL Treinamentos, membro da ARTPOP (Academia de Artes de Cabo Frio)

http://jfernandomarin.blogspot.com.br/

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