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Educação

Escola da Ponte, em Portugal, 
é referência de projeto pedagógico para vários países do mundo

O momento de manifestações por vários municípios brasileiros com reivindicações de melhora em uma série de aspectos coloca entre os principais pontos de pauta a educação, tema rediscutido invariavelmente num país que deseja ser grande, de fato. O assunto mexe com o interesse coletivo não porque os prédios das escolas brasileiras não são padrão dos estádios de futebol exigidos pela Fifa, mas porque sem educação não há soluções mágicas para o desenvolvimento, a soberania plena e o equilíbrio social. Educação é tema recorrente pelo péssimo desempenho do País. Nesta matéria, abordaremos um dos aspectos fundamentais da boa educação: a relação entre a família e a escola.

Um em cada 10 brasileiros com idade acima de 15 anos de idade não consegue escrever um bilhete simples. Esse contingente é de 14,2 milhões e os dados são de 2011, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nove em cada 10 estudantes da oitava série têm dificuldade na resolução das quatro operações matemáticas, segundo o Ministério da Educação e Cultura (MEC). Eis o quadro tenebroso e contrastante de uma instituição básica para qualquer povo.

A pedagoga e pós-doutorada em educação Vera Capellini define como essencial e inadiável o  relacionamento da escola com a comunidade e, principalmente, com os pais dos estudantes – sua família, enfim. “A relação escola e pais é de vital importância. Mas não só para os pais e não só para a escola. É uma via de mão dupla”, contextualiza, para quebrar tabus e o jogo de empurra que há principalmente na direção da família para a escola. Não é difícil constatar no cotidiano da sociedade brasileira que os “pais modernos” delegam à escola muito mais do que ela pode dar e, principalmente, mais do que é da responsabilidade dos educadores escolares. A pedagoga afirma que o êxito do projeto pedagógico da escola necessita da colaboração dos pais. Da mesma maneira, define Capellini, os pais precisam ser corresponsáveis pela educação formal das crianças e adolescentes para ter uma escola com ensino de melhor qualidade.

A pedagoga lembra que há temas que são foco da escola e também do cotidiano da criança e do adolescente fora do âmbito do espaço escolar, portanto, junto a seus familiares. Os pais devem estimular e participar com os filhos das atividades relacionadas à educação. Neste contexto se inserem, por exemplo, a execução de dever de casa e programas culturais extraescolar, como o programa cultural de se assistir a uma peça teatral. “Para que a escola seja de melhor qualidade, se o aluno participasse dessas atividades extras com os pais orientando, certamente seria um aluno mais crítico e com melhor aprendizagem”, pontua.

Nesta relação também se inserem as escolas. Capellini cita que a escola se equivoca ao chamar a presença dos pais somente quando os seus filhos não apresentam desempenho satisfatório ou por motivos de indisciplina. O pai corresponsável inserido no processo educacional favorece a resolução de questões como violência na escola e também valorizará a atuação dos educadores, brigando para a melhoria da qualidade de ensino. “Ele é o primeiro a fazer, por exemplo, movimento para que o professor seja valorizado. Para que a escola tenha de fato uma proposta que considere a realidade da comunidade”, define.

Capellini ressalta que o entrosamento dos pais com a escola minimiza os problemas do ambiente escolar e a participação encontra melhores saídas para os desafios que a escola tem que enfrentar.

Casa é continuidade da escola e vice-versa
A estudante Angélica Gomes Vanderlei, 7 anos, frequenta o segundo ano do ensino fundamental no Sesi. Os pais Renata Moreira Garcia, 35 anos, e Emerson Gomes Vanderlei, 39 anos, não apenas participam do ambiente escolar da filha.

Renata conta que Angélica é motivada por meio de um plano diário de estudos em casa, “sempre rodeado de muita harmonia e cooperação”. A mãe cita que, diariamente, observa os cadernos da filha para acompanhar a evolução e dificuldades. Caso encontre equívocos de ortografia, Renata demonstra para Angélica a maneira correta de escrever. Emerson e Renata também se envolvem com as questões da escola.

“Preocupados e envolvidos com a educação da Angélica, costumamos sempre questionar as ações da escola em relação ao rendimento escolar dela como aluna, além da sua motivação e interação com os outros alunos”, explica a mãe.
Além de Angélica, o casal educa o filho caçula Rafael Gomes Vanderlei, de apenas 10 meses.
“Mensagem à família”
O texto “Mensagem à família” de Eugênia Puebla foi publicado no Facebook de Renata com a foto da família expressando um pouco da relação dos pais com os filhos.

Na educação de nossos filhos
Todo exagero é negativo.
Responda-lhe, não o instrua.
Proteja-o, não o cubra.
Ajude-o, não o substitua.
Abrigue-o, não o esconda.
Ame-o, não o idolatre.
Acompanhe-o, não o leve.
Mostre-lhe o perigo, não o atemorize.
Inclua-o, não o isole.
Alimente suas esperanças, não as descarte.
Não exija que seja o melhor, peça-lhe para ser bom e dê exemplo.
Não o mime em demasia, rodeie-o de amor.
Não o mande estudar, prepare-lhe um clima de estudo.
Não fabrique um castelo para ele, vivam todos com naturalidade.
Não lhe ensine a ser, seja você como quer que ele seja.
Não lhe dedique a vida, vivam todos.
Lembre-se de que seu filho não o escuta, ele o olha.
E, finalmente, quando a gaiola do canário se quebrar, não compre outra…
Ensina-lhe a viver sem portas.”

Escola de Portugal é modelo de integração
Como exemplos de escolas em que os pais dividem com os educadores a frente para defender o projeto de ensino, Capellini cita a Escola da Ponte, em Portugal referência de projeto pedagógico para vários países do mundo. Como lembra a pedagoga, a Escola da Ponte tem um projeto excepcional para o sistema de ensino português.  “E ele só resiste por conta da participação dos pais. Foram eles que conseguiram defender junto ao Ministério para que a escola tenha autonomia de como seriam as aulas e a contratação de professores”, salienta.

Os pais da Escola da Ponte defenderam junto às autoridades de educação portuguesa o projeto pedagógico para que a escola desfrutasse da autonomia em relação às demais unidades de ensino do país europeu. A comunidade escolar da Ponte é que decide sobre seu projeto pedagógico e define a contração de professores. “A participação e a manutenção da escola só foi possível porque os pais compraram a briga junto ao Ministério”, acrescenta. Obviamente que a autonomia escolar está diretamente relacionada ao desempenho dos estudantes. “Já faz mais de 20 anos e os estudantes têm bom desempenho. Então, eles conseguem renovar para ter seu próprio projeto”, acrescenta.

A pedagoga explica que o desempenho dos estudantes do ensino médio de Portugal é o que define sua escolha na universidade. De acordo com Capellini, que acompanha a trajetória educacional da Escola da Ponte, os alunos são os melhores ranqueados em Portugal. A comunidade participa ativamente dos processos decisórios da Ponte.

Na Espanha, onde Capellini cursou pós-doutorado, ela conheceu o projeto pedagógico de uma escola com 700 alunos incrustrada em um pequeno vilarejo. Neste colégio, toda segunda-feira, às 16h, é o horário do encontro com a família, quando a equipe da escola recepciona os familiares dos estudantes. A pedagoga lembra que a Espanha recebe muitos imigrantes e os pais vão à escola uma vez por semana contar a história do seu lugar de nascimento, identificando o local em um mapa e descrevendo seus costumes. A atividade integra a disciplina de identidade em que se trabalha a história da comunidade.

Para a pedagoga, esse tipo de intervenção enriquece a informação, superando o conteúdo meramente livresco ou nas intermináveis cópias da lousa. No entender de Capellini, esse é um modelo em que os pais são corresponsáveis pela educação. “Não é só mandar o filho para a escola”, comenta. A pedagoga lembra ainda outra experiência inovadora e bem sucedida – o projeto de uma escola em Cotia, município da Grande São Paulo, também com participação dos pais.

Comitê incentiva ida de pais à escola
O Ministério da Educação e Cultura (MEC), na tentativa de enfrentar a “diáspora” entre escola e família, aposta no projeto Mobilização Social pela Educação (MSPE) com comitês espalhados pelos Brasil inteiro para aproximar escola e pais.

O Ministério identifica como barreiras para o envolvimento da família com a escola de seus filhos a dificuldade destes de diálogo com a escola para exposição de suas ideias; os pais se sentem intimidados pelo ambiente escolar; muitas vezes, eles tiveram experiência negativa em sua vida escolar; são pouco escolarizados e têm pouco tempo disponível para uma participação efetiva. Essas barreiras provocam frustração e, por consequência lógica, o afastamento do ambiente e dos temas relativos à escola.

Em Bauru, o comitê se formou após a Oficina de Formação de Mobilizadores Sociais pela Educação, promovida em 2008. A integrante Maria Teresa Turtelli esclarece que, inicialmente, começou com a Igreja Católica, na Pastoral da Educação, da Diocese de Bauru, e com as Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração. Na sequência se alastrou para vários outros segmentos religiosos; Sebes e Secretaria Municipal da Educação; Diretoria de Ensino; entidades sociais; educadores; e Universidade Sagrado Coração (USC).

A integrante do Comitê Maria Angélica Rabêllo define que a criança precisa ver que sua família e sua escola estão inseridas em um mesmo contexto. Os membros do comitê vão à escola e fazem um corpo a corpo com pais, estudantes e educadores para sensibilizá-los.

O grupo do MSPE utiliza uma cartilha ilustrada pelo cartunista Ziraldo, a “Acompanhem a vida escolar dos seus filhos”. Maria Teresa comenta que a Prefeitura de Bauru também deu um reforço imprimindo cerca de 25 mil exemplares, engrossando a tiragem disponibilizada pelo MEC.

A mais recente atividade do grupo foi promovida com a comunidade escolar da E.E. Serralvo Sobrinho, no dia 25 de maio passado. A intervenção do comitê acompanha uma apresentação para quebrar o gelo e, na sequência, é apresentado um audiovisual com uma fábula adaptada. O comitê trabalha com o propósito de apoio às famílias na árdua tarefa de incentivar os filhos a reivindicar seu direito (e dever) de aprender.

Fonte: JCNET
http://www.jcnet.com.br/Geral/2013/06/pais-e-escola-sem-parceria-educacao-fracassa.html

Esta matéria foi transferida do antigo Blog Educação, Cultura e Sociedade, atualmente, Blog Pensamento e reflexões de Austri Junior no

domingo, 23 de junho de 2013 – http://austrijunior.blogspot.com.br/

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