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Marcelo Barros

 

Monge beneditino e escritor

Adital – 22.04.13 

A maioria da sociedade civil brasileira estranha que o deputado posto na coordenação da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal manifeste opiniões preconceituosas que não contribuem com os direitos humanos, principalmente de grupos minoritários e vítimas de discriminação social. O Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de assassinatos homofóbicos. Contabiliza 44% das ocorrências no globo. De 2007 a 2012, calculam-se em 1.341 homicídios contra a população LGBT. O Disque 100 recebe por dia, em média, oito denúncias de violência contra homossexuais. Em 2012, no país, foram registrados 338 assassinatos de gays, travestis e lésbicas, sem falar nos casos não denunciados. Nesse contexto, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados tem como coordenador alguém cujas posições públicas contribuem para reforçar preconceitos. O mais grave de tudo não é o deputado Marco Feliciano afirmar que Deus, pessoalmente, é o mandante do assassinato de John Lemmon ou é o responsável pelo acidente que vitimou o grupo Mamonas Assassinas, nem que tornou os negros amaldiçoados por serem filhos de Cam, o filho rebelde de Noé.

 

Ao afirmar isso como quem defende o direito de Deus ser cruel, desumano e despótico, ele põe em julgamento não as categorias e pessoas que ele discrimina e sim o próprio Deus. Deus é o réu em um julgamento no qual quem o diz defender, verdadeiramente o acusa e quem não fala em Deus parece mais ser seu representante. Por isso, as posições do deputado Feliciano nos desafiam não apenas a protestar contra o pensamento que consideramos absurdo em alguém que se diz cristão, mas a nos preocupar com o fato de que esse tipo de visão é muito comum entre os cristãos e tem muitos seguidores entre pastores e fiéis em todas as Igrejas. Na semana passada, em um grande evento de uma Igreja pentecostal em Brasília, o pastor Feliciano foi aplaudido de pé por 40 mil pessoas. Infelizmente muitos pastores pentecostais, evangélicos e mesmo alguns prelados católicos não se pronunciam tão explicitamente, mas pensam do mesmo modo sobre Deus, sobre a sociedade e sobre a vida. Não são poucos os padres e bispos católicos, assim como pastores evangélicos de Igrejas históricas com as mesmas posições homofóbicas, discriminatórias e intolerantes do pastor Feliciano. Há poucos anos, depois do terremoto do Haiti, um pastor foi à televisão e declarou que aquilo aconteceu como castigo do Deus porque os haitianos adoram deuses africanos. No Brasil, há alguns anos, um cardeal declarou que a Aids é um castigo de Deus para a humanidade pecadora. Ao nos deparar com essa interpretação fundamentalista da fé, podemos compreender a posição de Richard Dawkins, filósofo ateu, que afirmou: “Encher o mundo com religião e principalmente com religiões monoteístas equivale a espalhar pelas estradas pistolas carregadas. Não se surpreendam se elas forem usadas”. E assim, se tornam compreensíveis cruzadas, tribunais de inquisição, caça às bruxas e perseguições de hereges. E os fiéis continuam contentes ao ler ao pé da letra que o Deus da Bíblia libertou os hebreus e afogou os egípcios no Mar Vermelho, mandou matar todos os cananeus, habitantes da terra, invadida pelo povo de Deus e inspirou o salmo que diz: “Podem cair mil à tua direita, dez mil à tua esquerda, fiques tranquilo que nada te acontecerá” (Sl 91). Esse modo pouco amoroso de compreender a fé ensina que existe inferno e diz que Deus amou Jacó e rejeitou Esaú.

 

Graças a Deus, cada vez mais cresce o número de cristãos que reconhecem a Bíblia como escritura de uma palavra divina, mas a partir de uma cultura humana e condicionada por elementos que temos de ser capazes de criticar e transformar. A própria revelação divina se deu em um processo evolutivo. A compreensão do patriarca Abraão de que Deus o mandava matar o seu filho Isaac, se transformou muito no decorrer da Bíblia. Evoluiu até Jesus revelar a Deus como Paizinho que “faz o sol nascer sobre os bons e sobre os maus e chover sobre os justos e os injustos” (Cf. Mt 5, 45). Roger Schutz, fundador da comunidade ecumênica de Taizé, resumiu: “Se é Deus, ele só pode amar!”. Um deus cruel e impiedoso que castiga e discrimina pessoas é um ídolo e não o Deus de Jesus Cristo. Um Deus menos humano e menos bondoso do que qualquer pessoa razoável do nosso tempo é um divisor (em grego, diabolos) e não o Deus do qual João escreveu: “Deus é amor, quem vive o amor, vive em Deus e Deus vive nessa pessoa” (1 Jo 4, 16).

 

Fonte: Adital – Notícias da América Latina

http://www.adital.com.br/?n=ckdf 

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Comentário do Editor

 

Recebi o link desse texto via mensagem em meu facebook, enviado pelo meu amigo, o professor Miguel Favoretti, Cristão Evangélico.

 

Bem, como Teólogo Cristão Protestante (aquele que protesta contra as injustiças sociais, contra os descasos e os desmandos das autoridades políticas, contra a corrupção e contra essa igreja “evangélica” corrompida que aí está, andando na contramão do Cristo),  tenho acompanhado essa infame trajetória da Comissão Nacional de Justiça, e acompanho já há muito tempo a trajetória infame, insalubre e detestável do Marco (in)Feliciano, e confesso: Tenho vergonha desse sujeito! Mas ao mesmo tempo em que sinto vergonha de uma pessoa dessa (tão baixa) estirpe, fico a pensar e questiono: Como a política brasileira pode descer à um nível tão (in)suportável? Esse sujeito é o Marco (in)desejável que uma nação verdadeiramente democrática poderia desejar, e é também o Marco (in)confundível de um pseudo e doentio cristianismo, que nem de longe representa a vontade dos verdadeiros cristãos – que costumo identificar como cristificados. E se esse cancro que atende pela alcunha de Feliciano que está tornando in-felizes as mentes pensantes da nação brasileira, não representa os cristãos cristificados, se quer poderá representar o Cristo e muito menos falar em nome de Deus. Como bem  frisou o Monge Beneditino Marcelo Barros em seu texto acima (cf 1Jo 4,16): “Deus é amor…” 

 

Esse famigerado indivíduo que se diz pastor (só se for pastor de bodes),  e seus co-religionários, estão adoecendo os cristãos inocentes, desavisados, sem visão, sem discernimento, sem conhecimento, e estão adoecendo ainda mais os cristãos conservadores…, de todas as denominações, inclusive os cristãos da denominação católico romana, bem como algumas pessoas da sociedade civil (não cristãs), mas que praticam a intolerância – é impressionante como as pessoas unem as forças para se apoiarem quando se trata de objetivos escusos, ou quando querem prejudicar alguém ou algo, mesmo quando caminham por estradas diferentes. Lembro-me não faz muito tempo, em Brasília, católicos romanos carismáticos subiram em um trio elétrico junto de Silas Malafaia e Magno Malta para protestar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e contra o material didático que os “evangélicos” denominaram de “kit gay”. Passado esse momento (de insanidade), os “evangélicos” continuam classificando os católicos como idolatras dominados pelo demônio, e que vão arder no fogo do inferno, e que serão enviados para lá por Deus.

 

O deus de Feliciano é dissabor, discórdia, desavença, desunião… Um deus que divide e condena com a missão de ser carrasco. Esse não é o meu Deus e Feliciano não me representa. O meu Deus é o “Abba” de Jesus (Papaizinho), cheio de amor, compaixão, misericórdia… Abba é o Pai de Jesus Cristo, que nos fez filhos com ele. Se sou filho de Deus, sou irmão de Jesus, e faço parte de uma família feliz e saudável, a Sagrada Família que Ama, que Perdoa, que tem Compaixão e Misericórdia. Que inclui a todos. Até onde sei, Cristo doou a sua Vida por todos! A isto chamamos Economia da Salvação. Pseudos cristão pensam que a Economia da Salvação é excluir os outros para sobrar mais para eles. Esse in-feliciano está querendo tornar a família de Cristo infeliz como ele é. Amargo, intolerante, insuportável…

 

O texto do Monge Beneditino Marcelo Barros é pertinente e muito importante. Felizmente só tenho que concordar com ele. E se Deus é Amor, sou feliz e felizardo (bem-aventurado – cf Mt 5). In-felicianos são os filhos do outro. Esses não representam nem o amor  e nem a vontade do Deus Todo-poderoso, porque Deus é Amor!

 

Austri Junior – Bacharel em Teologia, Educador e Editor do Blog Educação, Cultura e Sociedade

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