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Sociedade

 

 

 

 TV UNIVERSITÁRIA, RN

 

Por Ruy Alkmim Rocha Filho

 

em 12/02/2013 na edição 733

 

 

 

Era para ser uma simples matéria uma sobre a educação. Uma repórter da TV Universitária do Rio Grande do Norte perguntou à secretária Betânia Ramalho sobre a jornada de trabalho dos professores. Na matéria, a ser veiculada no TVU Notícias, fora ouvida a dirigente sindical dos professores, que questionava o tempo do qual os educadores dispunham para planejamento e estudo. A lei federal 11.738/2008 estipula que um terço da carga horária seja dedicada ao planejamento, mas o estado só reserva um quinto. Diante da insistência da repórter em questionar, a secretária reclamou e disse que iria telefonar para a reitora da UFRN.

Depois de concluída a matéria, com os dois pontos de vista apresentados, o diretor da TVU, Marcone Mafesoli, fez uma nova edição com o intuito de eliminar informações e opiniões divergentes. Acontece que a boa polêmica, que respeita a diversidade de opiniões, é a base do jornalismo e da democracia. Não se sabe se a secretária Betânia Ramalho telefonou ou não, mas uma simples ameaça comprometeu o direito que o cidadão tem de se informar dos fatos, com alguma profundidade e contextualização.
Este episódio já seria lastimável em qualquer jornal, mas se torna ainda mais grave numa televisão universitária, que em tese se propõe a fazer e ensinar jornalismo de qualidade, de acordo com os princípios da comunicação comprometida com o interesse público e não com o lucro de empresários e financistas ou conveniências de parlamentares, governantes e outras figuras de poder.

Ameaças ao jornalismo
O jornalismo em Natal tem sofrido muito. Lembro de uma pessoa que trabalhou na TV Ponta Negra, concessão pública administrada pela família da ex-prefeita de Natal, relatando que durante o mandato de Micarla de Sousa os problemas comunitários de cidades próximas eram abordados. Os problemas de Natal, não. Será que a TVU vive dias de Ponta Negra? Profissionais que atuam na emissora afirmam que fatos como estes se repetem. A TVU está completando quarenta anos e estes não são os únicos acontecimentos dignos de nota. O número de bolsistas foi reduzido drasticamente, enquanto a contratação de profissionais é lenta e insuficiente.

Foram extirpados conteúdos importantes. O programa TVU Esporte foi retirado do ar, sem maiores explicações, às vésperas de uma Copa do Mundo. O mesmo ocorreu com o Tubo de Ensaio, único programa da emissora universitária voltado exclusivamente para ciência e tecnologia. O Canto da Terra já não é gravado, fechando uma das poucas janelas para exposição da música feita no Rio Grande do Norte.

Enquanto se fala no direito à informação, na importância de dar transparência aos atos públicos, de democratizar a comunicação, alguns fingem que esta conversa não é com a TVU. O problema é que se trata de uma instituição simbólica pelo que é e pelo que poderia ser. Se não há um firme compromisso com a audiência na TVU, que dispõe de meios para conquistar alguma autonomia, como esperar algo dos veículos que são dominados pelos coronéis que se revezam na política ou pelos donos do dinheiro?
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[Ruy Alkmim Rocha Filho é professor universitário, Parnamirim, RN]

Fonte: Observatório da Imprensa – Caderno da Cidadania
http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed733_materia_sobre_educacao_e_censurada

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