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Comportamento

As várias faces da mulher

As mães contemporâneas participam de um movimento dinâmico que se alterna entre a carreira e o relógio biológico. A satisfação pessoal se sobrepõe à culpa e ao medo do fracasso.

Luciene Araújo, mãe de Maria Clara, de 7 anos, reforça o papel da mulher nos dias de hoje: mais consciente de sua função de ser mãe.

Quisera ser mãe… Abdicar do conforto. Renunciar ao corpo. Reinventar o amor. Uma amiga, gestando sonhos de um outro, de um outro para sempre seu, insistia em dizer: “Nós, mulheres, nascemos para parir. Estou na minha melhor performance”, maravilhada com os arranjos do tronco para receber um novo alguém. A mulher que gera se culpa, “defende a cria com unhas e dentes”. É uma construção moderna, embora a contemporaneidade tenha inaugurado novos arranjos. A maternidade foi ampliada. As produções e adoções independentes ou por casais homoafetivos, o encolhimento familiar, mesmo a convicção de que “ser mãe não é pra mim” deram às mulheres um poder antes não experimentado. Contra sogras insistentes, um modelo estabelecido, um ideal de que a família só se completa com a chegada de um herdeiro, hoje elas decidem se querem ou não viver a experiência de ser mãe. As mulheres que negam a maternidade estão aí. Embora em gritante minoria. Como também irrompem mulheres-coragem, ousadas, dispostas a escolher no menu de possíveis pais a parte que lhes falta para realizar o sonho de carregar no útero uma parte sua. De mãos dadas com a ciência, elas experimentam outro poder antes pouco exercido. Já podem ser mães independentemente de terem um homem ao seu lado, disposto a compartilhar a paternidade. Mais uma vez são exemplos de resistência em uma sociedade que, embora em transformação, exija da mulher o papel de mãe. A relações-públicas Luciene Araújo, de 42 anos, não reconhece em si o jeito de ser da sua própria mãe. “Ela é de uma geração que focava o cuidado. A relação da mãe com o filho naquela época era mais distante. Hoje, como temos menos tempo para estar com nossos filhos, é afeto o tempo todo. É mais prazer do que obrigação”, acredita. Mãe de Maria Clara, de 7 anos, Luciene vê a mulher de hoje mais consciente do seu papel na vida dos filhos. “Somos fundamentais para seu desenvolvimento emocional.” Mas com o filho também vem a culpa, a dedicação, o esgotamento. Medo e alegria coexistem nessa relação de amor incondicional. As cobranças com a amamentação se transformam no conflito de conciliar maternidade e carreira. Elas querem visibilidade profissional, mas também desejam acompanhar os filhos de perto. Querem também sonhar sonhos só seus. Querem amar e ser amadas. Há vida além da maternidade. São várias as faces da mulher contemporânea…

A NOVA SUPERMÃE
Elas são dedicadas, afetuosas e tentam conciliar trabalho e vida pessoal. São vários os modos de ser da mulher contemporânea

O tal amor materno, popularmente tachado de incondicional, já não é o mesmo. O sentimento de uma mãe por um filho é uma construção histórico-social marcada por controvérsias, delineada por aspectos políticos e culturais que emolduram a maternidade ao longo dos anos. Se hoje recai sobre as mulheres a culpa de conciliar maternidade e carreira, há centenas de anos nem sequer existia essa consciência de um amor diferenciado.

Kênia Zagnoli preferiu ficar em casa para cuidar de Henrique até ele completar 2 anos

Registros históricos revelam as características do amor materno nos séculos 17 e 18. Naquele tempo, era comum, principalmente nas classes mais abastadas, as mães entregarem os filhos aos cuidados de amas de leite. Ao transferir a função materna para outras mulheres, apesar do alto risco de mortalidade infantil, a mãe revelava indiferença em relação ao filho, justificada por uma necessidade de priorizar sua liberdade. Hoje, as mães se punem por não poder amamentar.

Teóricos do assunto acreditam que não se tratava de desamor ou falta de interesse pela criança, mas sim uma necessidade de trabalhar em casa, mesclada à possibilidade de pagar uma ama de leite. Foi nos séculos 19 e 20 que o culto ao amor materno atingiu seu ápice, reconfigurando o papel e o valor da mãe, ampliando sua função biológica para a educacional, social e emocional. É aí que a mãe passa a ser associada a uma figura mítica, bíblica, por que não?

A relações-públicas Kênia Zagnoli, de 33 anos, mãe de Henrique, de 1 ano e dois meses, pretende ficar fora do mercado de trabalho até que ele complete 2 anos. A profissional chegou a voltar ao trabalho depois da licença-maternidade, mas foi dispensada dois dias depois. Aproveitou para acompanhar os primeiros passos do filho. “Foi muito difícil voltar. No primeiro dia, cheguei em casa e ele estava com febre. Para mim, foi algo favorável.”

Mas a dedicação exclusiva ao filhão teve outras consequências. Kênia sabe como será difícil voltar ao mercado e o deixar em casa. Afinal, estão extremamente apegados. A convivência também acabou por diminuir a participação do pai nos cuidados. “Ele ajuda, mas, talvez se eu estivesse trabalhando, ele teria assumido mais. Talvez lá na frente essa escolha não tenha sido tão boa. A gente criou uma grande dependência”, teme. Culpa, culpa, culpa. Seja qual for a decisão de uma mãe, ela parece estar sempre rodeada por esse sentimento de não ter agido da melhor forma. A arquiteta Ariane Alves optou por não ter filhos e agora se prepara para viajar com o namorado para a Patagônia

MALABARISTAS, SIM!

Medo de engravidar, do parto, de não conseguir amamentar. Medo de voltar ao trabalho, de fazer falta em casa, de o filho se machucar. Alegria de pegar no colo, ver o primeiro sorriso, ver a cria voar. As dores e as delícias de ser mãe andam juntas. Volta e meia a mulher que escolhe a maternidade vive sentimentos conflitantes. E sofre com eles. Não é fácil experimentar a liberdade ao lado de alguém que passa a depender de você. Mas é preciso tentar.

A ideia da supermãe ganha novos contornos nos dias de hoje. E foram os conflitos revelados em sessões de terapia que levaram a psicóloga Renata Feldman ao estudo do tema. Em sua dissertação de mestrado pela PUC Minas, entitulada As várias faces da mãe contemporânea, a pesquisadora olha para os modos de ser mãe na atualidade, observando como mulheres em dinâmico processo de construção e reconstrução de sua subjetividade se veem, como se sentem, como percebem suas formas de viver a maternidade.

Isso porque, no atendimento a mulheres, gestantes e puerpérias, a psicóloga viu o tema maternidade invadir as sessões. Menos ou mais frequente, ele sempre aparecia envolvido de conflitos, angústias, ternura também. “Que mulheres são essas que se reconhecem como mães de carne e osso e falam de culpa e esgotamento quase sempre, mas não abrem mão da experiência e querem o melhor possível para seus filhos?”, questionava a especialista.

Filhos e carreira. Como conciliá-los? Segundo Renata, que ouviu mulheres de perfis diversos para sua pesquisa de mestrado sobre o assunto, é esse o conflito comum a todas elas. Elas ganharam o mercado de trabalho e querem se destacar, competir, contribuir. Mas há também a corrida contra o relógio biológico, a mudança no casamento e mesmo a vontade de não se render à maternidade.

A arquiteta Ariane Alves, de 43 anos, nunca pensou muito sobre o assunto e só compreendeu que não teria filhos ao passar dos 30. “Sempre tive companheiros dispostos a formar uma família, condições financeiras e, mesmo assim, não tenho vontade. Foi algo natural para mim. Não existem fatores externos. Não tenho em minha família e nunca vivenciei em algum relacionamento qualquer tipo de cobrança. Simplesmente não tenho vontade”, conta.

Em sua dissertação de mestrado a psicóloga Renata Feldman pesquisou como vivem e o que sentem as mulheres nos dias atuais

Há seis anos em um relacionamento estável, em que sua opção por não ser mãe é respeitada, Ariane vê o fato como algo natural. Talvez porque na família paterna muitas tinhas tenham tido a mesma opção. “Não quero me prender a essa responsabilidade. Maternidade pra mim é como um passarinho preso na gaiola. É essa imagem que tenho”, compartilha. Exemplos como o dela são cada vez mais comuns. As mulheres de hoje já podem se posicionar até em relação ao que mais se espera delas: ser mães.

Ariane quer tempo e liberdade para fazer suas viagens de aventura pelo mundo. Agora, por exemplo, planeja um tour de 30 dias pela Patagônia, algo impensável se tivesse que alimentar e cuidar de alguém que dela dependesse. Sem filhos, curte a relação com os sobrinhos, principalmente os mais velhos. “Convivo bem com os filhos dos meus irmãos. Minha irmã mais nova também não quer ter filhos e adora passear com os sobrinhos. Prefiro programas com adolescentes”, completa.

CARREIRA

Ao investigar as singularidades e os modos de existir da maternidade, Renata Feldman delineou inúmeros perfis da mãe contemporânea em sua pluralidade afetiva. Ao contrário de um padrão único e homogêneo, viu várias faces interpostas, permeáveis, passíveis de transformação em um movimento dinâmico e contínuo de ser mãe. São vários os sentimentos comuns. Também são vários os posicionamentos frente a eles.

A relações-públicas Luciene Araújo sempre pensou em ser mãe, mas nunca em desistir da carreira para isso. Para ela, a mulher contemporânea precisa de sua satisfação pessoal, e também ser produtiva e útil para a sociedade. “Equilibrar isso com a maternidade é um malabarismo. Mas é importante tentar conciliar a profissão com a atenção a si mesma, com o filho, a casa e o relacionamento”, acredita.

A força para isso, em sua opinião, vem da própria maternidade. “Acho que ser mãe nos ajuda a ser pessoas melhores. Hoje eu tenho outra visão do mundo, priorizo a relação com minha filha, mas quero ser o melhor que posso para ela e para a sociedade. Acho que a mulher consegue se adaptar. Claro que se abre mão de muita coisa, mas é possível viver essas duas experiências: a profissão e a maternidade.”

TRÊS PERGUNTAS PARA… MARLISE MATOSCoordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher e do Centro do Interesse Feminista e de Gênero da UFMG

Em que contexto o papel da mulher é atrelado à maternidade?

Com a difusão dos métodos contraceptivos a partir dos anos 1960, a maternidade deixou de ser um “destino” inexorável para boa parte das mulheres. Nesse sentido, a pílula foi mesmo revolucionária. O controle contraceptivo é uma estratégia importante de deslocamento dos destinos vitais das mulheres para o resultado da maternidade. Foi apenas a partir das possibilidades concretas de intervenção e controle sobre a natalidade, que passou a ser possível pensar em desatrelar o papel feminino ao lugar de mãe. Mas essa possibilidade não quer dizer que todas as mulheres, em todos os contextos, em todos os tempos e lugares, estejam efetivamente livres desse “destino”. Em algumas sociedades e culturas isso ainda não é realidade.

Quais são as consequências sociais de a figura da mulher estar vinculada à figura da mãe?

O papel de mãe é o mais tradicional possível associado às mulheres. Desde sempre, a identidade, o lugar social, a posição que ocupam no plano econômico, político, cultural e social estão marcados por essa relação com a maternidade. Essa experiência, invariavelmente, localiza, situa, condiciona as mulheres em uma esfera que terminou por ser aquela na qual ela está mais legitimada: o mundo doméstico, privado, do cuidado. Em parte, isso já se constitui em um “problema”, porque as mulheres também ambicionam e estão inseridas no mundo público, a esfera de atuação predominantemente masculina.

Os movimentos feministas foram capazes de transformar esse cenário?

Eles tiveram um protagonismo monumental em fazer as sociedades refletirem sobre esse lugar de exclusividade de atuação das mulheres como “mães” e “cuidadoras”. Também motivaram inúmeras mulheres a questionarem esse lugar de exclusividade. Elas foram, aos poucos, mas não sem dificuldades, para os processo de escolarização e para distintas, e ainda segregadas e discriminadas, ocupações no mercado de trabalho. Mas isso gera muitos desencontros, como as duplas e triplas jornadas de trabalho.

Fonte: Estado de Minas – Publicação: 14/07/2013 08:25Atualização:14/07/2013 09:57

 http://sites.uai.com.br/app/noticia/saudeplena/noticias/2013/07/14/noticia_saudeplena,144003/mudancas-da-sociedade-geram-novos-perfis-da-mulher-contemporanea.shtml

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