Tags

Sociedade

Antônio Galvão*

 

A inspiração de escrever sobre o Parlamento foi imanada  tomando um café no tradicionalíssimo Café Nice, localizado próximo ao Obelisco da Esperança, na Praça Sete. Olhando ao redor vi uma multidão frenética gritando palavras de ordem em meio à sujeira no chão, pichações e tom envelhecido das pinturas das fachadas dos prédios antigos. Fico aborrecido de ver Belo Horizonte tão mal tratada.

Neste momento estou viajando de Paris rumo a Berlim, tendo passado por Londres. Quanta beleza! Não sou invejoso, mas sonho com a nossa capital mineira mais limpa, ordeira e próspera. Não suporto a falta de educação e a indiferença social que pairam em BH, sinal da incivilidade naturalizada.

Viajamos para repousar os olhos, aliviar os fardos e para escutar a alma.  Mas, sobretudo, para degustar e respirar a cultura e o conhecimento do “velho mundo”. Os mais velhos sempre carregam, na matula ou algibeira, sabedoria, temperança e vitalidade do tempo. Inclui a Europa na grade de estudo da minha vivência e imersão na cultura. Sempre com a inspiração para transmutar a consciência e principalmente buscar novos saberes: comportamental, cultural, econômico e político.

Estivemos nos parlamentos de Londres, Paris e Berlim fazendo caminhada pela história. Trago comigo forte impressão e admiração.  Londres, Paris e Berlim são roteiros perfeitos para peregrinar nesta sinfonia cultural. A força da história e do Parlamento qualifica a moral na ousadia e na capacidade de escutar o povo e construir uma ponte para o seu bem-estar e felicidade.

Não podemos e não devemos esmagar e achincalhar o parlamentar com avalanches de matérias negativas das mídias, com processos, julgamentos e manifestações de agressão e desprezo em razão da canalhice de muitos, mas nunca de todos. Salvar o Parlamento dos políticos corruptos e amorais é uma obrigação de todos que escutam a voz do povo, que é a voz de Deus. Também não façamos espetáculo inquisitório nem tampouco injustiça. É essencial identificar, apurar e julgar com justiça. O Parlamento é permeado de gente laboriosa e honesta. Muita calma nessa hora.

Não se pode deixar calar a voz do povo. E o Parlamento não pode se divorciar do clamor popular. Só o voto pode decepar esta lambança senhorial. A corrupção mata a juventude e enfraquece o brilho dos honrados. A desonestidade causa vergonha. Trabalho para servir, buscar meios dignos e labuto com o fazer político na Casa do Povo, a Câmara Municipal de Belo Horizonte. A instituição mais fascinante e contraditória que se pode servir e trabalhar para povo para se ganhar o pão.

Nesse lugar, há traços de estadistas discursando da tribuna e também a miudeza. O espírito de porco fuçando lamentáveis interesses corporativos ou individuais. Fico aborrecido quando atacam o Parlamento, pois essa instituição dos democratas e republicanos é fruto de uma construção de séculos. Quem não estuda e reflete a História não sabe o percurso do sacrifício dos mártires para garantir a liberdade de expressão e reivindicar frente aos caudilhos e tiranos.

Não ataquem a Casa do Povo como se todos fossem impuros ou perdulários. Cada político e cidadão leva consigo em seu interior o seu próprio Parlamento, que reflete externamente a sua maneira de representar o povo através de sua conduta. Cultivo, como a maioria do povo, os políticos autênticos e fiéis aos princípios da dignidade, transparência política e financeira, compromisso com o povo, valorização das políticas públicas e honra de servir o povo. Quanto aos que praticam o fisiologismo, baixa transparência, falta de escrúpulo, carreirismo, oportunismo, cinismo, vaidade e mesquinhez, aí vai nossa reivindicação: “Volte para sua casa! Não venha participar da vida pública”.

Estamos neste instante em Frankfurt escrevendo este texto. Na peregrinação pelo velho continente, na busca de conhecimento, reflexão e lazer pelas culturas inglesa, francesa e alemã nas cidades de Londres, Paris, Frankfurt e Berlim. Tudo fascina e surpreende. É no ócio criativo que se aprende o verdadeiro valor do saber. Não saí de férias, vim para a sala de aula do mundo. Cada povo, uma seiva. Tudo me intriga e revela.  A grandeza e beleza me contagiam. Sinto a boa inveja e desejo de compreender tudo.

Agora a política e o Parlamento são minha reflexão. Como construíram um Parlamento britânico com tamanha exuberância e tradição! Francês refinado e iluminista. E o alemão forte e cartesiano. Todas essas instituições transpiram respeito. As capitais europeias desafiam as autoridades públicas e a sociedade. Complexas, cosmopolitas e lindas. Todos os cidadãos deveriam ter o direito de estudar e visitar as grandes cidades do mundo. É uma rica aula de civilidade, cultura e apreço ao povo. As cidades dos filósofos, estadistas, escritores e artistas produzem ideias como: “Não concordo com uma só palavra que acabas de dizer. Mas defenderei até a morte o direito que tens de dizer”, Voltaire.

Estive de frente ao predio do Parlamento da Alemanha que se chama Reichstag. E naveguei a História Politica Alemã imaginando a cena do edifício sendo consumido pelo fogo.  “Um mês após a nomeação de Adolf Hitler para o cargo de chanceler da Alemanha, o prédio foi incendiado, no dia 27 de fevereiro de 1933. Adolf Hitler e Hermann Göring chegaram logo em seguida e tomaram as providências de buscar culpados e providenciar as medidas de autoritarismo. Os dirigentes do partido foram então presos. Hitler, tirando proveito da situação, declarou estado de emergência e encorajou o então presidente Paul Von Hindenburg a assinar o Decreto do Incêndio do Reichstag, que suspendia a maioria dos direitos humanos garantidos pela Constituição de 1919 da República de Weimar. Aqui inicia um tempo de autoritarismo e extermínio. Tempo do nacional socialismo, o Nazismo. Quanta crueldade e assassinato prático como política de Estado!   Quando se põe fogo no Parlamento, a história nos ensina que os perseguidos de hoje poderemos ser todos nós. E que a omissão e o silêncio poderão acarretar muita dor  para todos. A ação política de invadir o Parlamento e as instituições democráticas, surrar e matar adversário não cria justiça social e melhoria da vida. E’  pura ilusão de quem ainda não olhou para História e não viu o sangue de milhões de inocentes na sanha assassina de ditadores.

Por fim estive no campo de concentração Sachsenhausen, próximo de Berlim, que assassinou e torturou milhares de judeus, ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais, adversários políticos, prisioneiros de guerra e  deficientes físicos.  Foram presos e torturados neste campo 140 mil prisioneiros de  1936 a 1946 e executados mais 30 mil prisioneiros. Tudo muito triste.

Não se enganem, homens dos cargos públicos e de retórica afiada.  A miséria e a injustiça já guilhotinaram reis e rainhas. E o fuzilamento moral sepultará vossa cobiça e indiferença ao povo. De tudo que vi, senti e toquei, fica a vontade de continuar lutando pela emancipação do homem, frente à desigualdade social e à indiferença. Lutarei junto com os democratas para o fortalecimento do Parlamento sempre em consonância com os gritos e clamores das manifestações republicanas e pacíficas. O caos não fecunda justiça, solidariedade e paz.  Avante, companheiros dos parlamentos!

Os extremismos de esquerdistas e direitistas só geram sofrimento. Não ponham fogo no Parlamento! Não ponham fogo na democracia nem na liberdade de expressão.Ponham juízo, inteligência, energia para melhorar a qualidade do debate politico e renovar os atores políticos. Não sejam omissos e incendiários ingênuos. Viva o Povo Brasileiro e as instituições parlamentares.

* Antônio de Pádua Galvão,economista, é psicanalista. – www.galvaoconsultoria.com.br

Fonte: Jonal do Brasil

http://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2013/08/02/salve-o-parlamento-e-o-povo-brasileiro/

Anúncios