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Dias Campos

=> Escritor, advogado (PUC/SP, 1992); Especialista em Direito Penal (ESMP/SP); Professor de Direito Penal e Processo Penal (UNIP, fev. 2000 a jul. 2007).

=> Vencedor (Medalha de Ouro) – Primeiro Concurso Literário “Oliveira Caruso”, 2011, Categoria “Poesias”, com Nunca desânimo…
=> Vencedor – Concurso Mundial de Cuento y Poesía Pacifista, 2010, modalidade Conto em Português, com Nunca desânimo…
=> 3º colocado no II Prêmio Araucária de Literatura, 2010, de Campos do Jordão, com o conto A derrama.
=> Romance publicado:
As Vidas do Chanceler de Ferro. Lisboa: Chiado Editora, 2009.
=> Textos literários publicados:
Neste átimo… (microconto publicado na Revista Varal do Brasil (www.varaldobrasil.com), n.12, nov/11, p.34).
Como a ferrugem e a traça (Crônica selecionada no I Prêmio Escriba de Crônicas de 2011).
Um só caminho (Soneto – Livro Diário do Escritor 2010, Litteris, 2009).
Valeu a pena, (In, ENTRELINHAS – Antologia de contos e microcontos, Andross, 2008).
Caso Diniz, um protesto (Soneto – Revista da APMP, n. 18, mai. 1998).
O cortejo (Conto – Notícias Forenses, n. 161, nov. 1997).
=> Autor de Direito penal e justiça militares: inabaláveis princípios e fins. Curitiba: Juruá, 2001.
=> Co-autor de Lamentáveis “elipses jurídicas”. In: CORRÊA, Getúlio (org.). Direito militar – história e doutrina – artigos inéditos. Florianópolis: Associação dos Magistrados das Justiças Militares Estaduais – AMAJME, p.49-64, 2002.
=> Autor de diversos textos jurídicos.

***

Nunca Desânimo…

Um conto de Dias Campos*

– Estamos aqui reunidos para tratar de um assunto de extrema importância e
máxima urgência! Um verdadeiro escolho aos nossos legítimos interesses. – Havia
apenas mais três integrantes nessa reunião. Por isso, a altiloquência da mediadora era
um tanto desnecessária.
– Eu detesto quando ela começa com essa “ladainha ufanista”. – Comentava
Marte com o parceiro da direita e a baixa voz.
– Ora, ora… Desde o último embate entre vocês, lá em Tróia, que você detesta
tudo o que diga respeito a Minerva. – Respondia Ares, o seu equipotente grego, no
mesmo tom e com picardia, relembrando ao deus da guerra sangrenta a derrota dos seus
protegidos, face à epopeica vitória dos exércitos resguardados pela deusa da guerra
justa.
– Quietos! A hora é de somarmos forças e não de nos dividirmos. – Cariocecus, o
deus lusitano da guerra, interveio e pôs fim à quase celeuma. Minerva continuou:
– A humanidade cada vez mais se une em torno do pacifismo… E isso tem que
ser revertido. Onde, o nosso proveito? Onde, o nosso prazer? – E a camarilha
concordava em uníssono.
– É notório que os movimentos a favor da paz estão se organizando dia a dia e
por toda a Terra. E, o que é pior, ampliam os seus tentáculos por meio das mais variadas
formas, indo de discursos empolgantes, passando pelas passeatas e chegando à solta de
balões brancos. – Prosseguia Minerva, em seu introito.
– Ora, não sei por que tanto alarido – desdenhava a divindade lusitânica. Quero
recordá-la de que nunca abandonamos os nossos postos. Aliás, lembra de Heráclito?
Pois não foi você, Ares, que bem soube deturpar a Luta dos Contrários, levando os
contemporâneos do filósofo e os que se lhes seguiram a justificarem a guerra, pois dela
resultariam a harmonia e a justiça?
– E olha que nem precisei de sacrifícios humanos para me estimular. – E os três
riram a breve tempo, lembrando os prisioneiros que, volta e meia, eram ofertados a
Cariocecus.
– Não questiono, aqui, os nossos feitos pretéritos – intervinha Minerva –, mas
coloco à prova o nosso futuro, a nossa sobrevivência! – De repente, o silêncio se
sobrepôs aos gracejos… e a circunspecção tomava conta das mentes beligerantes.
Passados alguns segundos, Marte questionou:
– E o que mais poderíamos fazer para atacar essa onda pacifista? O que sugere?
– “Uma grande parte dos males que atormentam o mundo deriva das palavras”,
disse Burke certa vez. Ora, lembrando que, na atualidade, praticamente não há mais
fronteiras para a literatura, já pensaram no malefício que faríamos se conseguíssemos
minar os espíritos de quantos tentam usar a palavra escrita em prol da paz? Ataquemos
os escritores, e o estrago se multiplicará.
– E por acaso essa ideia é original? Também quero lembrá-la, oh querida irmã,
de que jamais negligenciamos essa área do pensamento humano; tanto que bem
soubemos inspirar muitos autores. Aliás, já que hoje estamos para as citações, recordo o
americano Oliver Wendell Holmes: “A guerra é a cirurgia do crime. Por má que ela
seja, significa sempre a extirpação de qualquer coisa pior.” – Marte não perdia nenhuma
oportunidade de alfinetar a rival.
– E eu, o brasileiro Tobias Barreto: “Cada guerreiro que por nós combate é a ira
de Deus que se faz homem.” – complementou Ares, aderindo à zombaria.
– Sempre a impulsividade sobrepondo-se à racionalidade… Não quis fazer alusão
a esse ou àquele escritor, propriamente dito. Referia-me ao Concurso Mundial de
Cuento y Poesía Pacifista, e que, pelo que fui informada, ganha adesões a cada minuto.
– Esclareça melhor o seu plano, Minerva. O que você pretende realmente? –
Carioceus falava por todos.
– Eu explico: é notório que as palavras, sobretudo as escritas, sempre foram mais
fortes do que as espadas ou canhões. Chegam a milhões e se perpetuam na história. Ora,
indaguei a mim mesma, como contra-atacar os nossos inimigos e conseguir com que
sejam derrotados?
– Como?! – Perguntaram, a uma só voz, os três armipotentes.
– O segredo está em convencer-lhes os espíritos de que são incapazes de mudar o
ser humano. De que seus esforços, suas palavras serão sempre inúteis; uma luta em vão,
uma tola utopia. – Um leve sorriso, misto de maquiavelismo e prazer, formava-se
espontâneo nas fácies bestiais.
– Agora entendo aonde quer chegar, Minerva. Tratemos de convencer os
participantes de que são impotentes diante da beligerância inata dos mortais e esse
concurso será o maior fiasco de todos os tempos! – Era a primeira vez que Marte
concordava com a parenta.
– É claro!… Com isso, toda a Terra reconhecerá que, se até seus poetas e
prosadores deixaram-se levar pelo desânimo, do que valeria ao povo que os toma como
exemplos perseverar no ideal pacifista? – Ares somava-se em entusiasmo.
– Brilhante, oh deusa da guerra diplomática! É como eu sempre digo: as boas
ideias se revelam simples e eficazes. Sendo assim, proponho um brinde – e a potestade
lusitana levantava a taça –: ao malogro desse concurso!
– Ao malogro! – E beberam, e riram, e celebraram por toda a noite.
Era preciso agir rápido. Cada divindade ficou encarregada de atuar em uma parte
do globo. Marte, por exemplo, não abriu mão das Américas; Cariocecus, de toda a
Europa… Minerva e Ares não se opuseram e dividiram o restante de comum acordo.
No dia seguinte ao refestelo, e mesmo sob a viva lembrança de Baco que bem
lhes pesava ao raciocínio, os potentados partiram com seus exércitos rumo às casas dos
concursandos. E o cerco teve início, implacável, impiedoso…
– Ah, como é nobre a sua intenção. E quão bela a sua veia artística! – Comentava
Ares, consigo, junto a uma promissora poetisa. – Pena que tudo farei para tolher-lhe o
ânimo. Que tal…? as últimas investidas da Coréia do Norte? Lançam uns mísseis aqui,
outros ali… e a boa e velha Guerra Fria está mais viva do que nunca.
– Vejo que seu conto está prestes a acabar, pretenso aprendiz de best-seller. –
Sussurrou Marte, em tom desdenhoso, a um romancista consagrado. – Quem sabe eu
possa desencorajá-lo, enfatizando que o homem continuará a não dar ouvidos à história,
pois os campos de concentração, que pensavam estar para sempre enterrados, ainda
ardem nos corações bósnios, face ao extermínio perpetrado em Srebrenica?
– Nada como reinar aquém da Taprobana… – Cariocecus deleitava-se ao
regressar a Lisboa. Nunca se desapegara do seu antigo Condado Portucalense… –
Percebo vigor e idealismo neste jovem ensaísta. Seu currículo só tende a florescer.
Bem… que tal se eu o lembrar do comércio escravagista que os nossos patrícios
desenvolveram? Ou então… Dos arbítrios que seu avô salazarista cometeu? Certamente
essa breve retrospectiva o envergonhará e o desalentará, pois o levará a crer que os
mortais continuarão a se chafurdar no erro, século após século, mesmo que admitam a
história como uma espiral ascensional.
– Que otimismo na terceira idade! Não pensei que chegando aos oitenta e dois
anos ainda houvesse esperança dentro desse coração velho e cansado. Quer dizer que a
literatura infantil é o seu passatempo? Curiosa coincidência… pois o meu é, justamente,
desvirtuar a juventude! – Nunca viram Minerva tão pérfida! – Vejamos… Idade
provecta, vida sofrida… Pois eu pergunto, senhora, se tem tão pouco tempo de vida; se
viu guerras e até viveu comoções intestinas… será que ainda há tempo para ensinar algo
de bom aos pequeninos, pois, mais cedo ou mais tarde, engrossarão as fileiras de
soldados, revolucionários ou terroristas?
E os meses foram passando… A cada dia, os comandantes divinais eram
informados por seus generais sobre as investidas aos participantes do concurso.
Romancistas, poetas, contistas, sonetistas, ensaístas, novelistas… todos os que, com sua
arte, procuravam contribuir para a prosa ou para poesia pacifistas eram acossados das
mais variadas formas; nunca olvidando dos objetivos e dos meios traçados por Minerva.
E toda vez que o quarteto divino se reunia para avaliar a ofensiva, era difícil saber qual
deles cantava maior vantagem sobre o outro. Os semblantes, no entanto, camuflavam a
realidade dos fatos, escamoteando-os nos torreões do orgulho…
E o concurso continuava… e por mais que os deuses guerreiros afirmassem que
os resultados que obtinham eram satisfatórios, ou que os relatórios apresentados por
seus comandados fossem, como diziam, positivos, o número dos participantes não
diminuía; pelo contrário, mais e mais escritores se inscreviam!
– Eu não consigo entender o que aconteceu! – bradou Marte num arroubo de
cólera, pois que encantoado pela angústia. Mas antes que algum dos demais ousasse
uma justificativa, um general se aproximou e disse:
– Oh altipotentes, um nosso espião conseguiu uma cópia de um dos poemas
finalistas. Tentará nos enviar o outro, bem como o conto selecionado, assim que a
oportunidade lhe for favorável. – E o entregou à mentora belicosa.
Minerva estava trêmula e envergonhada; muito distante da genialidade que um
dia inspirara Odisseu a imaginar um grande cavalo de madeira… Ares, então, tomou-lhe
o papel e, em voz alta e pausada, começou a ler um soneto.
E a cada verso, em que se entrosavam perfeitamente decassílabos e alexandrinos,
mais um quê de originalidade, revelava aos demais que o esforço que tanto
despenderam, esse, sim, tinha sido em vão:
Um só caminho.
Em meu reino, de onde posso tudo ver,
conta bendita a que me doei,
só vejo a luz que de mim criei,
nunca desânimo, em que não quero crer.
E se muitos há que te levam a arder,
pecadores por quem sempre roguei,
avatares alhures enviei.
Segue-lhes os passos! Isso, sim, é viver.
Mas o homem insiste em se desviar…
e não se detém. Conquista; mata; erra.
Enloda-se no poder que o faz cegar.
Destarte, retorna ao pó pela guerra…
Mas, não duvides, nasceste para amar.
Faze, pois, o que te cabe! Paz na Terra!

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