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A vida tem sempre razão 
(“tem dias que eu fico pensando na vida…”)
Por: Carlos Eduardo Calvani*
Escolhe, pois, a vida! Esse tema está na ordem do dia das discussões da Campanha da Fraternidade. De fato, é uma recomendação bastante pertinente diante dos muitos sinais de morte que insistem em nos acompanhar no dia-a-dia.
A vida e suas ambigüidades
            O problema é que, quando escolhemos a vida, estamos assumindo conscientemente (ou não) os riscos de sua imprevisibilidade. Sim, porque a vida é imprevisível. Não é um jogo de cartas marcadas nem um tabuleiro de xadrez onde podemos fazer movimentos cuidadosamente pensados porque ainda que os façamos, o que vem pela frente pode não ser exatamente aquilo que esperávamos. Lenine, na composição “Vivo”, reflete:

Vivo (Lenine)

Precário, provisório, perecível;

Falível, transitório, transitivo;

Efêmero, fugaz e passageiro

Eis aqui um vivo, eis aqui um vivo!

Impuro, imperfeito, impermanente;

Incerto, incompleto, inconstante;

Instável, variável, defectivo

Eis aqui um vivo, eis aqui…

E apesar…

Do tráfico, do tráfego equívoco;

Do tóxico, do trânsito nocivo;

Da droga, do indigesto digestivo;

Do câncer vil, do servo e do servil;

Da mente o mal doente coletivo;

Do sangue o mal do soro positivo;

E apesar dessas e outras…

O vivo afirma firme afirmativo

O que mais vale a pena é estar vivo!

Não feito, não perfeito, não completo;

Não satisfeito nunca, não contente;

Não acabado, não definitivo

Eis aqui um vivo, eis-me aqui.

Talvez, por isso, Paul Tillich tenha escolhido como título para a 4ª parte de sua Teologia Sistemática, a frase “A vida e suas ambigüidades” – porque, realmente, a vida é ambígua, repleta de oscilações e incertezas. Como diz o autor de Eclesiastes, a vida debaixo do sol é um ir-e-vir de vitórias e derrotas, conquistas e fracassos, realizações e decepções.
            As pessoas mais religiosas talvez possam responder: “ah, mas essa é a vida de quem não tem fé ou de quem não ama a Deus…” É sim! Na verdade, todos nós, com fé ou sem fé, amando a Deus ou não, vivemos sob o constante risco de tomar decisões que não sabemos serem certas ou erradas e a Bíblia, a Tradição Eclesiástica ou o Magistério não são manuais de receita para a vida, tal como pensam os fundamentalistas. Nesse ponto, John Lennon estava certo: “Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à
marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar alternativas”.
Ou seja, estamos, realmente, condenados à liberdade e a reconhecer que, debaixo do sol, a ambigüidade é constante: há momentos em que plantamos; em outros temos que arrancar o que plantamos. Novamente, o Eclesiastes nos ajuda a meditar nisso: “há tempo para construir e tempo para destruir… Tempo de abraçar e tempo para se separar….”
A vida tem sempre razão…
            As experiências que vamos acumulando no decorrer da vida são tantas e tão diferenciadas que só nos fazem realmente pensar que a vida é um grande mistério. Em uma de minhas experiências pastorais, acompanhei muito de perto o sofrimento de um jovem casal que viu seu filhinho de três anos de idade manifestar uma dessas formas de câncer hereditário que destroem o corpo em poucos meses.
Aquela pequena criança crescera na igreja. Eu, inclusive, a batizara quando do seu nascimento. Muito esperto, era querido por todos que conviviam na comunidade. De repente… A notícia que nos pega de surpresa – ele está com câncer e, aparentemente, não tem cura.
Foram muitas as visitas ao hospital e à casa dos pais. Foram muitos os momentos em que eu não sabia o que dizer. Nada do que eu aprendera nos livros de teologia e nos bancos de seminário parecia responder às minhas inquietações… Quanto mais às inquietações dos pais que viam seu filhinho definhar.
A última vez que vi aquela criança foi no hospital. Seu corpo estava completamente deformado. A quantidade de remédios fizera todo seu cabelo cair; a cabeça estava enorme e o corpo raquítico, em total desproporção. Ainda assim, ela abria os olhinhos e sorria. Naquele dia voltei do hospital indagando: “Senhor, o que significa isso? O que eu posso fazer?”
Dois dias depois fiz o sepultamento da criança. Evidentemente, o caixão estava lacrado, coberto por algumas fotografias tiradas antes da criança adoecer. Eu não sabia o que dizer. Quem tem filhos sabe que a ordem “natural” das coisas é que os filhos enterrem os pais e não o contrário. Sempre imagino a intensidade da dor de um pai ou uma mãe que precisam enterrar um filho.
Três dias após o sepultamento fui fazer uma visita pastoral aos pais. Conversando com ambos, de repente, a mãe diz com lágrimas nos olhos: “sabe, reverendo, os três anos que passei com meu filho foram os melhores anos da minha vida…” (!?!?) Mais uma vez, saí dali desconfiado de que o ministério pastoral não era para mim….
Por isso, diante desse tema tão em voga atualmente – “Escolhe, pois, a vida!”, penso que o melhor mesmo é evitar construir elaboradas argumentações sobre esse grande mistério. O convite está aí, extraído das Escrituras Sagradas, mas a vida permanecerá um grande mistério. Isso me conduz a Vinícius de Moraes e Toquinho:

Sei lá – a vida tem sempre razão

(Toquinho/Vinícius de Moraes)
Tem dias que eu fico pensando na vida

E sinceramente, não vejo saída

Como é, por exemplo, não dá pra entender

A gente mal nasce, começa a morrer

Depois da chegada vem sempre a partida

Porque não há nada sem separação

Sei lá, sei lá,

A vida é uma grande ilusão

Sei lá, sei lá,

Eu só sei que ela está com a razão
A gente nem sabe que males se apronta

Fazendo de conta, fingindo esquecer

Que nada renasce antes que se acabe

O sol que desponta tem que adormecer

De nada adianta ficar-se de fora

A hora do sim é o descuido do não

Sei lá, sei lá,

Só sei que é preciso paixão

Sei lá, sei lá

A vida tem sempre razão


Há tanta vida lá fora...

            Pra escolher a vida, além de coragem, é preciso muita paixão e entrega total. Afinal, a vida, com toda sua intensidade, requer essa entrega. Ao menos é o que aprendi da canção “Vida”, de Chico Buarque. Seu refrão é inspirado em Goethe (“Luz, quero luz!”) e trabalha com a metáfora dos palcos teatrais, onde a superposição de cortinas esconde cenários diferentes, encerrando mistérios a ser revelados ao espectador. A imagem da cortina corresponde à imagem bíblica do véu que preserva o mistério do Santo dos Santos. É nos palcos atrás das cortinas que está a luz capaz de preencher de vitalidade o artista e o espectador. Trata-se de um clamor pela remoção do véu (revelação) que esconde a luz. O artista reconhece a necessidade de arriscar-se e entregar-se a essa busca pela luz, sujeitando-se à instabilidade que ela pode provocar. O contraponto é dado pela segurança oferecida pelas imagens dos barcos que atracam no cais e pelos sinais de alerta dos faróis que servem de orientação. Contudo, a determinação em alcançar plenitude de vida o impele a prosseguir buscando luz, pedindo mais, sempre mais, e aceitando o risco de rumar para o mais longe possível das seguranças do cais:

Vida (Chico Buarque de Holanda)
Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz

Deixei a fatia mais doce da vida

Na mesa dos homens de vida vazia

Mas vida, ali, quem sabe, eu fui feliz

(…)

Luz, quero luz,

Sei que atrás das cortinas são palcos azuis

E infinitas cortinas com palcos atrás

Arranca, vida; estufa, veia,

E pulsa, pulsa, pulsa mais…
Mais, quero mais,

Nem que todos os barcos recolham ao cais

E os faróis da costeira me lancem sinais

Arranca, vida; estufa, veia

Me leva longe, longe, longe, leva mais….
Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz

Toquei na ferida, nos nervos, nos fios

Nos olhos dos homens de olhos sombrios

Mas vida, ali, quem sabe, eu fui feliz…

            Arrisco a interpretar o mandamento “Escolhe, pois, a vida…” como um convite ao imprevisível. Não como um convite a seguir leis religiosas definidas sabe-se-lá-por-quem, baseados em alguma suposta revelação ou em algum oráculo divino. Fazer isso até seria fácil: a gente escolhe o que outros já definiram e escolheram; a gente escolhe aquilo que querem que escolhamos e rejeita o que querem que rejeitemos. Porém, essa será, realmente, nossa escolha, nossa vida?
            Por isso, prefiro entender o versículo “Escolhe, pois, a vida”, como um convite bem mais ousado: o convite do salto no escuro, pela fé, nos braços da totalidade da vida, imprevisível e fascinante… Afinal, “há tanta vida lá fora…”.
            Por isso, esse tema pode soar também como um ousado estímulo a dizermos para todos os religiosos que acham que dominam a vida: “Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho, deixem que eu decida a minha vida… Não preciso que me digam de que lado nasce o sol, porque bate lá meu coração…”
Escolhe, pois a vida – faça uma lista…
            Nesses dias de quaresma, em que as comunidades católicas refletem sobre o versículo proposto e em que as (poucas) comunidades protestantes que seguem o calendário litúrgico e tentam pautar sua espiritualidade por uma prática quaresmal, gostaria eu de ouvir, em um momento litúrgico, para meditação, a canção “A lista”, de Oswaldo Montenegro. Ela também é uma reflexão sobre a vida:
            A lista (Oswaldo Montenegro)

 
               Faça uma lista de grandes amigos
               Quem você mais via há dez anos atrás
               Quantos você ainda vê todo dia?
               Quantos você já não encontra mais...

               Faça uma lista dos sonhos que tinha
               Quantos você desistiu de sonhar?
               Quantos amores jurados pra sempre?
               Quantos você conseguiu preservar...

               Onde você ainda se reconhece
               Na foto passada ou no espelho de agora?
               Hoje é do jeito que achou que seria?
               Quantos amigos você jogou fora...

               Quantos mistérios que você sondava
               Quantos você conseguiu entender?
               Quantos segredos que você guardava
               Hoje são bobos... Ninguém quer saber...

               Quantas mentiras você condenava
               Quantas você teve que cometer?
               Quantos defeitos sanados com o tempo
               Eram o melhor que havia em você

               Quantas canções que você não cantava
               Hoje assobia pra sobreviver
               Quantas pessoas que você amava
               Hoje acredita que amam você...

A vida, realmente é um mistério. O mundo ainda pede sentido e clama por alegria e reencantamento. A questão, porém, é saber se as religiões tradicionais continuam a ter o poder de fazer isso sem criar neuroses e dividir as pessoas por meio de cercas dogmáticas ou imperativos absolutos e pretensamente universais. Ainda que o sejam, em todo caso, a arte também é capaz, à sua maneira, de reencantar o mundo. Os artistas, com seu sacerdócio e dons naturais, são capazes de compreender e revelar a pequenez e fragilidade humanas, e nos motivar a enfrentar a transitoriedade e prestar contas ao transcendente. As religiões tradicionais há séculos tentam dar respostas definitivas, eternas e exclusivas, mas continuam a cair no descrédito da juventude mais sensível devido às suas contradições e à grande capacidade que têm alguns grupos a elas ligados de fomentar o ódio, a morte, a violência e a opressão social e psíquica em nome de Deus. Os radicais islâmicos tentam responder ao mistério do sagrado com a carnificina do terrorismo e uma moral primitiva; pastores evangélicos confundem o anúncio de Cristo com lavagens cerebrais e terrorismo psíquico; os espíritas insistem em nos aprisionar em karmas e reencarnações purgadoras; setores da igreja católica satanizam a sexualidade e perseguem minorias. As religiões tradicionais nesse fim-de-século convivem com o fracasso, não representam praticamente nada para muitos setores da população e não conseguem mais lidar adequadamente com aquilo que as constitui: o mistério resplandescente de Deus e da vida. Ademais, embora todas as religiões insistam em dizer que são capazes de explicar a vida e, algumas até mesmo de a controlar, o que ocorre é o oposto – elas (as religiões e seus líderes) é que são controlados pela vida que os confunde e os surpreende.
Mas se as religiões tradicionais estão em crise, o sagrado busca outros caminhos de comunhão, revelação e salvação; a arte é um deles e esses poucos exemplos acima citados talvez possam nos fazer meditar com muito mais profundidade no mistério da vida. Afinal, ela, e não nós ou nossas instituições religiosas, “tem sempre razão”.

Escolher a vida é um risco, mas também uma promessa. Afinal, quando se escolhe a vida radicalmente, não há como negar que “mistério sempre há de pintar por aí”.

*Carlos Eduardo Brandão Calvani, doutor em Teologia e pároco anglicano. 

Carlos Eduardo Brandao Calvani
Possui graduação em Bacharel em Teologia – Seminário Teológico Rev. Antonio de Godoy Sobrinho (1990), mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (1993) e doutorado pela Universidade Metodista de São Paulo (1998). Atualmente é coordenador do Centro de Estudos Anglicanos, que assessora os Seminários Teológicos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Teologia, História do Pensamento Cristão, Teologia Latino-Americana e Teologia Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: teologia, religião, protestantismo, anglicanismo e Tillich.
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