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Na segunda feira (passada), por volta das oito da manhã, eu estava em minha sala (na escola), trabalhando no computador, enquanto esperava a hora de sair com as crianças para a academia, onde praticamos a HAMONIZAÇÃO PSICOMOTORA (atividade que reúne alongamento, meditação, relaxamento e arte marcial – que desenvolvi para trabalhar com os educandos do Programa Educação em Tempo Integral, onde exerço a função de Educador Social), quando adentrou uma menina, que vou chamar pelo nome de Margarida (por uma questão ética), e que tem nove anos de idade.

Digitando, perguntei-lhe, sem retirar os olhos do teclado:

Está tudo bem?

Ao que ela respondeu:

Tudo…

Tem certeza? Insisti.

Tenho…

Porque você não está brincando com as outras crianças?

Eu quero ficar aqui com você! Respondeu.

Mesmo?! Interroguei exclamando com muita surpresa.

– Mesmo! Ela exclamou.

Talvez alguém esteja se perguntando: – Por qual motivo ele ficou tão surpreso assim?” Na realidade, além de surpreso, fiquei muito feliz e satisfeito com a atitude dela, pelo fato de que a Margarida não gostava muito de mim. Eu lhe cobro com muita insistência, atitude de respeito e socialização com os coleguinhas. Ela  tem dificuldade em se relacionar com as outras crianças, e com os adultos também. Vive metida em confusão, e em geral  ela é a causadora dos conflitos. A Margarida “gosta” muito de uma fofoca e não respeita os limites que lhe são transmitidos, entre outras coisas. Nesse dia descobri o porque. (As famílias nem sempre nos colocam à par dos fatos reais, e nessa caminhada vamos avançando pouco a pouco, e construindo a nossa compreensão dos fatos as vezes com certa lentidão, porém com lucidez e muita clareza…)

Margarida então, disse em seguida:

Eu quero conversar com você.

Imediatamente parei o meu trabalho e olhei para ela, dando-lhe toda a atenção:

Pode falar meu amor…

Eu quero falar sobre a Jane.

Jane (nome fictício) é a irmã dela que é mais velha – onze anos – e que participa do Programa também. A Jane sempre apresentou um comportamento totalmente oposto ao comportamento da Margarida, e quando ela disse que a conversa era sobre a irmã, pensei: “Senta que lá vem a fofoca.”

Então lhe perguntei:

O que tem a Jane?

O “tiu”, a Jane não é nada disso que você pensa.

Como assim? Perguntei.

Ela se junta com as colegas grandes e fica ‘apertando’ a campanhia da casa dos outros e corre, ela e as colegas dela riem dos adultos na rua, chama as pessoas de feias, e outro dia, elas riram de uma mulher que estava no ponto de ônibus só porque a mulher é gorda. Ela responde a minha mãe, e não respeita os adultos. Em casa ela me bate, e não me deixa brincar com os brinquedos dela e fica me zuando porque eu não conheço o meu pai, e ela conhece o pai dela. Quando não tem ninguém em casa, ela liga o computador e fica na internet. Ela sabe que não pode. Outro dia o meu padrasto brigou com a minha mãe porque a Jane mexeu no computador e encheu o computador de vírus… Aqui ela fica fingindo ‘prá’ você que é boazinha, só ‘prá’ você deixar ela ser a líder.

Foram revelações interessantes, essas que a Margarida me fizera sobre a irmã ‘boazinha’. Entretanto, as revelações bombásticas sobre a situação familiar ainda estavam por vir. Então ela continuou:

O meu padrasto comprou uma moto. Ninguém pode chegar perto da moto, e nem passar a mão nela que ele briga e faz a maior confusão. No sábado a Jane subiu na moto e ‘fingiu’ que estava dirigindo. O meu padrasto chegou bêbado em casa, e viu a Jane em cima da moto. Ele foi prá cima dela prá  bater nela, a minha mãe não deixou, então ele começou a bater na minha mãe, ela pegou uma faca e foi prá cima dele, então ele fugiu, e a minha mãe chamou a polícia. O meu padrasto só chegou hoje de manhã, na hora que nós saímos para o ‘Tempo Integral’.

Como é a vida de vocês em casa? Indaguei.

Nossa vida é um inferno!

Por quê?

Porque nós não podemos fazer nada. O nosso padrasto briga com a gente o tempo todo, por qualquer coisa… nós não podemos nem brincar direito.

Ele bate em vocês?

Não. Quando ele vai bater ‘na gente’ a nossa mãe não deixa, ela diz que ele não é nosso pai, e por isso ele não tem o direito de bater em nós. 

Ele bate na sua mãe sempre?

Quando está bêbado… Respondeu.

Como foi que a sua mãe conheceu essa pessoa?

– Quando a ‘gente tava’ se mudando, a minha mãe ‘tava’ carregando as coisas grandes sozinha, ele viu e ofereceu ajuda. Então ele chamou a minha mãe para sair de noite, ela aceitou, eles saíram outras vezes, então começaram a morar e ele foi morar lá em casa.

A mãe dessa criança tem quatro filhos: um garoto de 13 (anos que mora com a tia e ‘está dando um trabalho enorme’, segundo o relato da Margarida, nessa mesma conversa. Segundo ela, o irmão – que no início do ano também fez parte do Programa Educação em Tempo Integral – ‘está dando um trabalhão e está começando a andar com a turma da pesada’). Tem a Jane, com 11 anos, a Margarida, com 9 anos e uma filhinha de 2 anos que é filha desse indivíduo que chamarei pelo nome fictício de ‘Mineiro’. Cada uma dessas crianças tem um pai diferente, e a Margarida até nessa segunda feira não conhecia  o pai, e nunca havia falado com ele.

A menina seguiu o seu relato dizendo que ela e a irmã não podem fazer o dever de casa porque o Mineiro não deixa. Ele também não deixa que elas estudem para as provas, e também não podem fazer nenhum trabalho relacionado à escola. Elas não podem nem tocar nos brinquedos da irmãzinha que é a filha dele. Não podem beber o leite, porque o leite é só da menininha. Ele trás para a filha biscoitos recheados e outras guloseimas, mas a margarida e a Jane não podem comer. Ele dá presentes à filha e não dá para as meninas que não são filhas dele – apesar das atitudes abomináveis do Mineiro, penso que pode haver nesses atos miseráveis desse indivíduo um gesto de vingança e um recado direto para a mãe das meninas que diz: ‘você não tem o direito de bater nelas porque você não é o pai delas‘.

Margarida seguia com o seu relato, enquanto eu escutava atentamente, e diga-se de passagem, emocionado, vendo a angústia e o sofrimento daquela criança de apenas nove anos e com tantos problemas na vida, embora eu sei que existem crianças com menos idade e muito mais problemas que ela. A pior parte da narrativa foi quando ele me disse que as vezes lhes falta o alimento, e que ele só compra para a ‘filha dele‘. Em todos os momentos em que ela se referiu à irmãzinha, ela só falava ‘a filha dele’. Em dado momento ela me disse:

No dia das crianças nós não ganhamos nenhum presente, ele só comprou para a filha dele e talvez no natal nós não vamos ganhar nenhum presente também. A minha mãe ganha pouco e não tem condições de camprar presente pra nós… Acho que nós não vamos nem ganhar caderno e lápis de cor novo no ano que vem, porque  a minha mãe não pode comprar.

Nesse momento os meus olhos se encheram d’água. Tentei segurar o choro, um nó enorme travou a minha garganta, engoli-o com dificuldade e as lágrimas desceram-me pela face, ali em minha sala de trabalho, diante daquela garotinha, cujos olhos fixos em mim, expressa um grito de socorro. É duro ouvir isso. É duro lembrar dessa narrativa, sem experimentar o mesmo sentimento, enquanto digito aqui no blog. Impossível (para mim) não chorar de novo!

Sequei as lágrimas com as mãos, tentando me recompor, enquanto sentia uma dor apertar o meu peito, e o incomodo nó que insistia engasgar-me, fechando a minha garganta.

A narrativa da Margarida foi muito mais além:

A minha mãe está pensando em juntar dinheiro para alugar uma casa, mas ela ganha pouco e tem muitas divididas. ela tem medo de que o meu padrasto mate ela. Eles brigam muito, e quando eles brigam, a Jane entra no meio tentando separar a briga. Eu tenho medo dele matar a minha mãe. Minha mãe evita brigar com ele. Quando ele chega bêbado, a gente sai de casa, porque a minha irmãzinha tem mancha na pele, e toda vez que eles brigam a mancha da minha irmãzinha aumenta.

Esse foi um dos raros momentos em que a Margarida não se referiu à irmãzinha como ‘a filha dele’. A ‘mancha na pele’ da irmãzinha dela é o vitiligo, e é de ordem emocional – a mãe já havia me dito, em certa ocasião.

A narrativa dela prossegue com a seguinte fala:

Eu nem podia falar, mais eu vou falar: o meu padrasto fuma droga, ele gasta o dinheiro dele com essa porcaria. Todo dinheiro que ele ganha ele gasta quase tudo nisso…

Percebi naquela menina de apenas nove anos, além de uma angústia enorme, uma forte necessidade de desabafar. Contar para alguém sobre o seu sofrimento, as suas angústias e opressões… Não era nem preciso perguntar muita coisa, na sua inocência de criança ela ia dizendo essas coisas que fazem parte do cotidiano dela, da mãe e das irmãs, testemunhas de uma realidade cruel, que faz parte de uma sociedade ainda mais cruel. Esse problema não é somente da Margarida, é também o problema de milhares de Margaridas espalhadas por esse rincão brasileiro, e que se repete todos os dias. Esse sofrimento também não é prioridade das crianças brasileiras, mas de milhares de crianças e mulheres: Margaridas, Rosas, Violetas, Acácias… que habitam esse enorme planeta, dividido em cinco continentes.

Perguntei para a Margarida, preocupado:

Ele usa a droga perto de você e da Jane?

Não. A minha mãe proibiu ele de fazer isso perto da gente. Ele se esconde. Tem um bequinho no quintal onde ele fuma. Sempre que ele está fumando, a minha mãe vai escondidinha e filma tudo prá ver quem vai ficar com a minha irmãzinha quando ela se separar do Mineiro.

Margarida, que tipo de droga ele usa?

Crack e maconha. Disse com uma grande e nítida tristeza no olhar.

Olhei bem dentro dos olhos dela e disse-lhe palavras de Amor e conforto. Conversei com ela por um bom tempo, orientando-a , como um bom Educador Social (que sem modéstia, eu sei que sou). E como não poderia deixar de ser, como ex-Pastor e ex-Capelão, como ex-Catequista de crianças e adolescentes (que fui nos meus bons e velhos tempos de Católico Romano e Pregador da Renovação Carismática Católica), falei-lhe do Amor de Deus e dos cuidados D’Ele para com ela, e para com a família dela. Ela fitava-me com os olhinhos bem arregalados e com muito interesse. Os seus olhos brilhavam, e no final ela disse:

Agora estou muito mais aliviada. Foi muito bom conversar com você, porque essa conversa tirou um peso muito grande ‘da minha costa’. 

Fiquei surpreso com essa frase que não é comum em se tratando de uma criança de nove anos, mas principalmente porque nunca pensei que a Margarida fosse uma criança tão madura, quanto se apresentou nessa manhã de segunda feira.

Pedi-lhe então que chamasse a Jane sua irmã mais vela para vir à minha sala. Busquei a confirmação dos fatos, o que ela confirmou, inclusive as suas próprias peripécias e o fato de que ela foi o pivô que desencadeou a última briga entre a mãe e o padrasto, e a orientei quantos aos devidos fatos, e fiz questão de lhe pedir que não tentasse separar a briga dos pais, por mais que ela ame a mãe, para evitar que ocorra uma tragédia maior. Orientei-a para que nesses momentos, ela buscasse a ajuda de algum vizinho, de alguma pessoa adulta.

Ontem, sexta-feira, não tivemos atendimento às crianças do Programa Educação em Tempo Integral pela manhã na escola, pois é dia do nosso PL. No turno vespertino (horário de estudo da Margarida), precisei substituir uma professora, e na hora do intervalo (recreio) estava atravessando o pátio da escola, quando a Margarida veio correndo em minha direção, me abraçou e me disse:

‘Tiu’, eu tenho uma notícia muito boa, quer ouvir?

Claro! É sempre bom ouvir uma noticia boa. Principalmente vinda de você!!! Respondi com carinho.

Hoje eu falei por telefone com o meu pai… Meu pai biológico. Ele vem me conhecer e eu pedi um presente. Ele vai me dar um presente de natal, e em Janeiro ele vem me buscar para passar as férias com ele. 

Mal deu tempo de eu lhe dizer:

Essa é realmente uma ótima noticia! Isso é realmente maravilhoso…

E ela saiu correndo e saltitando… Só queria mesmo partilhar aquela notícia alviçareira comigo. Nunca vi um par de olhinhos brilharem tanto!

Austri Junior

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