Contos de Leonardo Stuepp*

 Apresentação:

“Felizes os convidados para a leitura de O Sarau”

Raquel Furtado – Escritora.



O Sarau – essa obra de Leonardo Stuepp é algo maravilhoso. Leia aqui os trechos, dos sete capítulos que compõem o livro.


Austri Junior


Capítulo I

O Sarau 

Naquele dia, recebi um convite diferente, aconteceria, na casa  de uma senhora, conhecida como a Escritora, um sarau. 
Sentia-me estranho naquela noite. Estava nervoso, o coração acelerava nervosamente, as mãos transpiravam sem parar, deixando-me inquieto. Caminhava apressadamente, as orelhas e o nariz doíam, pois ventava bastante e a temperatura beirava os doze graus celcius, baixa para a nossa região. Conforme o nosso costume germânico, cheguei à reunião pontualmente, às vinte horas.
– Seja muito bem-vindo, Filósofo, eu sou a Escritora.
– Muito obrigado Srª escritora, é um prazer estar aqui, sinto-me lisonjeado.
– Venha, quero apresentá-lo ao nosso grupo: Aqui temos o Poeta, que hoje promete um poema novo de grande profundidade. Aqui temos a Cantora, garantia de números esplêndidos que nos levarão ao Olimpo. Aqui o Sr. Faz Tudo, precisando de alguma coisa é só pedir e, num já, estará em suas mãos. Aqui estamos como Sr. Músico, é segredo o instrumento com que vai nos brindar esta noite.
… Somos todos apaixonados pela cultura e pela vida, cada um de nós, representa uma parte desse contexto e sua opinião, para nós, é da maior importância. Aqui não discutimos a verdade do que nos é apresentado, sentimos a mesma em cada um dos apresentantes, respeitamos cada um como ele o é. Não se fuma durante os encontros. Bebe-se moderadamente. Participa-se do início ao fim, o  encontro dura no máximo quatro horas e existe a possibilidade de uma pequena parada para descanso. Não apresentamos temas muito controversos. Não questionamos e muito menos brigamos. 

***
Capítulo II

O Poeta


Este segundo capítulo de O Sarau – obra de Leonardo Stuepp – foi transcrito na sua íntegra, pois além de não ter como resumi-lo, a qualidade do texto original ficaria mais que comprometida: ficaria assassinada. Nesse capítulo, Leonardo Stuepp desfila com maestria a sua sensibilidade poética, o seu conhecimento filosófico e capta como ninguém as nuances da vida: nascimento, vida, morte, dúvidas, incertezas, encontros, relacionamentos… Leia e delicie-se com esse poema maravilhoso.

Austri Junior


– Boa noite a todos, é-me dada a incumbência de iniciar os trabalhos e apresentações de hoje, quando pela primeira vez desde que o nosso grupo existe, temos um novo integrante. Preparei um poema para exprimir a minha alegria, a minha angústia, a minha surpresa e a minha maneira de ver a vida. Assim apresentou-se o poeta. Um moço, eu diria, de no máximo trinta anos, estatura mediana, cabelos compridos, barba por fazer, trajando conjunto não muito familiar para mim,parecendo um hindu. Ele transmite calma, tanto no andar quanto no falar. Seu olhar é penetrante.

Dirige-se para o canto da sala, senta-se sobre uma grande almofada e logo um

foco de luz azulada não muito intensa pousa sobre ele.

 

A VIDA

Sensações,

sentimentos,

fome ou dor.

Alegria,

vontades satisfeitas,

birras do dia-dia.

Passagem,

demora,

brincadeiras, alegrias.

Brigas, frustrações.

Perguntas,

respostas ao acaso.

Não compromisso,

sequência de dias,

questionamentos.

Coisas no ar.

Compromissos, início.

Compromissos, respostas a dar.

Questionamentos sem solução.

Sequências de dias.

Espera.

Paciência, entendimento.

respeito devido.

Respostas a aguardar.

Descobertas, alegria. Sonhos.

Participante de novo grupo.

Além fronteiras do ar.

Amigos. Ideias. Notícias. Novidades.

Sequência de dias.

Espera. Acontecido.

Visão do ao redor.

Olhar para si.

Descobrir. Cobrir.

Vergonha,

Sentimento particular.

Só eu.

Um corpo,

não só comida e brincadeiras.

Um corpo.


Belo, sensual, estranho e seu.

O encontro,

Um outro.

Uma chama. Um Arder.

Outro corpo,

belo, diferente. Sensual.


Outro corpo. Outra pessoa.

Pessoa, sim. o outro também

Um olhar.

Novo sentir.

Estranho.

Sensação estranha.


Não é fome.

Não é dor.

Mas dói.

Que dor, que boa dor.

É prazer.

É sentir.


Reservado.

Inquieto. à busca,

busca do nada, no encontro do tudo.


O sonho,

brinquedo não.

O sonho. A mudança, o querer.


Mudança, quanta mudança.

A visão interior.

A busca do ser.


O encontro de si, no recolher-se.

Introspecção.

Questionamentos mais.


Respostas incompletas, buscas frenéticas,

Sentido.

Em tudo. Sentido.


A busca.

Conhecer a si.

A busca se si.

Quem sou?

Sou, isto basta.

O importante é saber que sou.

Sei. Sou.

Continuação.

Sequência de dias.


Outra vida,

a partir da minha. Outra vida.

Quem sou? Para onde vou?


Outra vida de mim emanou.

Encontro,

partilhar de dois.


Superior,

sim.

Superior. Um Ser.


Ser que é.

O ser que gera o ser.

Sequência de dias.

Para onde vou?

Quantos dias?

Certeza.


Afinal, certeza.

Certeza de todas as incertezas que povoaram.

Incertezas que geraram sequência.


Incertezas que geraram desafios.

Desafios que geraram sequências.

Progressos. Derrotas.

Sequência de dias.

Para onde vou?

Como vou?


Não mais importa.

Importante foi onde estive.

Estive aqui.


Soube do aqui.

A vida que nem sempre vivi.

Mas que, um dia, senti e entendi.


Dada me foi, sem que a pedido tenha.

Dada me foi, aproveitada, não sei.

Senti. Sim, em algum momento a senti.


Partir.

Deixar de estar.

Sequência de dias.


Quando partir, espero que aqui deixe,

um pouco do que na incerteza que aqui vivi.

O amor, que em viver descobri.

O amor, que sem notar senti.


Sentimento, cumprimento. Vida.

Se dada novamente me fosse. Vida.

Que alegria. Como gostaria.


Após alguns segundos de profundo silêncio, levantamo-nos todos e, sob uma chuva de aplausos fomos ao encontro do Poeta e abramo-lo carinhosamente. Seu rosto refletia a alegria de quem transmite o amor.

 *** 

 Capítulo III

   O Sábio

Neste terceiro capítulo de O Sarau, Leonardo Stuepp desfila com maestria a sabedoria espiritual de quem tem uma experiência com o transcendental, e de quem não passou pela vida em brancas nuvens.

Aqui, o autor descortina sutilmente a experiência com o sagrado, em um diálogo entre um jovem de visão curta, e um Mestre Sábio, que o ajuda enxergar a beleza da vida, mesmo quando as coisas parecem ruins e sem respostas.
Aprender a enxergar, é ter esperança, e perceber que existem muito mais coisas além daquilo que os nossos olhos e a nossa alma podem captar.
Leia e delicie-se com esse conto maravilhoso.
Austri Junior



O Mestre

Era uma tarde tarde ensolarada, porém Jorge sentia-se triste, envolto em uma névoa de dúvidas. Não compreendia os desígnios da vida.
Porque a morte tinha levado a sua mãe?
Caminhava trôpego, chutava as pedras.
Cansado, sentou-se em uma grande pedra.
– Pedra, tu estás aqui desde a eternidade e seguirá existindo por ela, muito já viste. Diga-me: por que nós seres humanos somos tão efêmeros? Por que somos um nada entre duas eternidades? Perguntou Jorge.
Longo silêncio se passou e Jorge chorava.
Um para o céu, Jorge viu uma pequena pequena passar e perguntou. Nuvem, tu que és mais efêmera do que nós, diga-me: por que assim o somos?
Longo silêncio se passou e Jorge chorava.
Um pequeno pássaro pousou em uma árvore à sua frente, parecia estar feliz, chilreava estridentemente.
– Pássaro, tu que cantas a beleza da natureza, vences as alturas consegues por ti mesmo voar, diga-me: porque a nossa vida é assim tão rápida? Aflito perguntou Jorge.
Longo silêncio se passou e Jorge chorava.
Um pouco assustado, Jorge viu rastejar a sua frente uma serpente.
– Serpente, tu que rastejas pelo chão e no silêncio dás o bote que mata, diga-me: qual o sentido de assim ser?
Longo silêncio se passou e Jorge chorava.
A lua caiu rapidamente e uma exuberante lua cheia despontou no horizonte.
– Lua, tu que iluminas a noite dos enamorados, diga-me, iluminas para quê? Se o fim é a tristeza? Pergunta Jorge.
Longo silêncio se passou e Jorge chorava.
Olhando para o céu Jorge viu um mar de estrelas e perguntou. Estrelas vós brilhais e piscais na imensidão, explicai-me: porque somos tão sós?
Longo silêncio se passou e Jorge chorava.
O dia chegou com um sol radiante
– Sol, tu que governas um sistema, diga-me: porque possibilitas a vida? Se ela é o princípio da morte?
Longo silêncio se passou e Jorge chorava.
um senhor aproximou-se de Jorge e pôs carinhosamente a sua mão na cabeça dele, dizendo:
– Jovem não te perturbes a toa.
– Senhor, tenho questões sem resposta – argumentou tremulo Jorge.
– Engano seu meu jovem. Respondeu o senhor. Todas as suas perguntas foram respondidas.
A pedra com o seu silêncio glacial, falou-te que no silêncio compreenderás que sabes da eternidade que te precedeu e, passas a fazer parte da eternidade que te sucederá.
A nuvem explicou-te claramente que o seu desaparecimento fará germinar a vida e nova nuvem há de surgir, tal como tu, que poderás gerar vida e de outra forma continuar a existir.
O pássaro mostrou-te que o que importa é viver e cantar o momento. A vida existe e será eterna se deixarmos de lado as preocupações vãs. Vivas e serás feliz.
A serpente mostrou-te que, se na tua vida te esconderes e deres o bote que derruba teu irmão, na verdade não viveste, mas rastejastes pela terra.
A lua mostrou-te que não devemos nos preocupar em iluminar o caminho, pois o que importa é que sejamos luz que leva ao crescimento e realização.
As estrelas mostraram-te que, mesmo sendo inúmeras, temos a impressão de solidão logo te mostrarão que na multidão podemos sentir-nos sós.
O sol por sua vez, mostrou-te que cada dia que nasce ele está lá, brilhante como sempre, possibilitando a vida em nosso planeta e que, ao invés de pensarmos que após o dia vem a noite, temos a chance de pensar que após a noite vem um novo dia.
O senhor levantou-se, afagou a cabeça de Jorge, abraçou-o carinhosamente e disse:
– Vai. A vida te espera. És parte dela. Faze da tua tristeza um momento de louvor Segue em frente, sê luz.
Jorge levantou-se, sentiu uma força estranha surgindo dentro de si. Olhou tudo ao redor, apertou fortemente o senhor e foi embora. Agora, mesmo que a vida fosse ainda incompreensível para Jorge, algum sentido havia em tudo.

***

Capítulo IV 

A cantora
Com riqueza de detalhes, o que nos arremete a um passado musical não muito distante, Stuepp traz à tona a sensibilidade poética traduzida na canção de Caetano Vellozo, tantas vezes gravada e interpretada por ícones da Música Popular Brasileira – Força Estranha!

Neste quarto capítulo de O Sarau, podemos nos deliciar com a sensibilidade do homem, do poeta, do sábio… escritor Leonardo Stuepp, que consegue captar a essência da vida, e, mais que isso, consegue transmiti-la com profundidade em poucas, porém, pofundas e incisas linhas, capazes de penetrar o âmago dos que se deixam embalar por tão maravihosa narrativa. Confira!
Austri Junior

– Gostaria de convidá-los a irmos à sala contígua, onde seremos brindados pelo belo canto de nossa terceira apresentante de hoje. – Acordando-nos, assim falou a escritora.
Fomos, então, até outra sala, um pouco maior, mas com o mesmo aconchego. Tinha duas grandes poltronas de couro, onde pudemos nos assentar comodamente a um canto seu enquanto, no canto oposto, tinha um grande piano de cauda, que, para surpresa minha, tinha a tocá-lo, vestido em um elegante traje de gala, (não sei como teve tempo de trocar a roupa) o nosso amigo Faz tudo.
– Queridos amigos. Devo continuar nosso encontro e, após este maravilhoso sentir a poesia da vida, com quem faz da vida uma poesia e, da linda mensagem do nosso ausente e muito querido Sábio, vou inspirar-me e refletir sobre esta força estranha que me leva a cantar.
Assim apresentou-se a cantora. Ela era linda. Negra, alta e delgada, tinha uma voz que nos levava a sentir a força do vento na delicadeza de uma brisa a refrescar. Sua idade era uma incógnita, rosto forte de traços bem definidos, cuja meiguice nos levava a contemplar a face de uma criança.
A cantora pegou afetuosamente seu violão e, sentando-se em um banquinho ao lado do piano, começou a cantar …
Sua voz enchia o ambiente com sons maravilhosos, olhávamos uns para os outros, extasiados pela beleza da música e pela melodia que deixava nossos corações palpitando fortemente…
Cada vez mais a interpretação da música nos levava aos suspiros, alguns chegaram a levantar e ensaiar uma dança com o invisível…
Que força estranha é esta?… eu via este menino … correndo…. brincando…
Ao terminar a música, ela olhou nos olhos de cada um de nós, levantou-se do banquinho, fez um gesto de agradecimento, sentou-se novamente e sorriu.
Gritos de bravo surgiram. Aplausos efusivos e novamente gritos, agora de “queremos mais”.
O Sr.Faz tudo dedilhava acordes maravilhosos, quando a cantora, olhando-nos meigamente, agradeceu muito e disse que cantaria mais uma canção e, esta era em homenagem a gente humilde deste país.
Pegou seu violão, olhou para o alto e começou a cantar com um sentimento tão forte, com uma força tão vibrante, que nós sentíamos nosso peito apertar, lembrando das pessoas humildes desse nosso país…
Novamente alguns se levantaram e dançaram com o invisível. Alguns sorriam, outros enxugavam lágrimas que teimavam em cair.
Ela cantava como se fosse a própria música. Seus dedos tangiam as cordas do violão e a expressão de seu rosto era serena, porém firme…
Quando terminou de cantar, repetiu os gestos gentis: olhando-nos nos olhos, levantou-se e inclinou-se em gesto de agradecimento.

Ficamos ali, sentados, com os olhos marejados a olhar. Tudo parecia tão lindo e, ainda a cantar. Vagarosamente fomos todos aplaudir, esta cantora abraçar. É, dizem que somos o resultado do ambiente em que vivemos, e o ambiente de hoje, parece, está-me transformando, até poesia de uma descrição estou declamando.
Voltamos para a primeira sala e, após a abertura de mais uma garrafa de vinho e petiscos mais, ficamos alguns momentos a refletir e, sem compromisso, algumas palavras fora jogamos.

*** 

Capítulo V
 O GAROTO

No quinto capítulo de O Sarau – O GAROTO – Leonardo Stuepp, mostra toda a sua intimidade com a filosofia, e, como filósofo que é consegue extrair a essência da vida, pescando uma maravilhosa pérola raríssima que se apresenta no diálogo entre um inocente garoto e um sábio peregrino, que filosoficamente o ensina a buscar as respostas para as perguntas em sua mente pensante.
Nesse quinto capítulo Stuepp nos ensina que precisamos refletir sobre as coisa em nosso entorno, e encerra com a profundidade de um homem que percebeu que a “lembrança é a memória do coração”
Austri Junior
[…] Chegada a hora da apresentação da Escritora, ela, gentilmente, convidou-nos para nos assentarmos em uma pequena sala, com uma grande poltrona de leitura, ladeada por um colorido e bem iluminado abajur. Ela sentou-se pausadamente, tomou um pequeno óculos e começo a falar. Sua voz era como um embalo, um som de mãe a cantar. Sua figura tinha um magnetismo que nos envolvia, fazendo com que ficássemos atentos e ávidos por ouvir.
– Desde pequena, gosto muito de ler e minhas primeiras leituras deixaram marcas profundas. Lembrando dessas maravilhosas leituras, dedico a vocês este escrito que relembra esses momentos felizes de minha vida.


Era uma vez. Há não muito tempo e não muito longe. Um garoto, que viva em um chalé sobre uma colina, com bela vista para uma lagoa, uma estrada e um rio. Ele morava com sua avó, seu avô e um cão.
Passava horas, sentado, a olhar a paisagem como a procurar algo. Olhava, olhava e parecia não encontrar. Caminhava então ao encontro do rio que, mansamente, parecia querer fugir-lhe. Não adiantava. A sorrir, o garoto o alcançava e, na sua alegria infantil, num mergulho, agarrava-o, pulava, brincava, jogava-o para cima e, com medo de que se machucasse, tentava retê-lo na queda. Em agradecimento pelo abraço afetuoso, deixava-o escorrer-se pelo seu rosto, sentindo o prazer do líquido gelado em seus lábios.
Um dia, a busca encontrada. Na curva da estrada e do rio, um vulto aproxima-se.
Ofegante após rápida descida da colina, encontra-se com o estranho.
– Quem és tu?
– Um peregrino.
– Não conheço peregrino, só minha vó, meu vô, o lago, o rio a estrada, o cão e o velho João. De onde vens?
– De longe.
– O que é longe?
– Longe é o lugar onde não estamos.
– Onde fica?
– Perto.
– O que é perto?
– Perto é a distância que separa os corações.
– Eu não te entendo.
– Tu perguntas muito.
– Ninguém me explica. Preciso saber.
– Continue a busca.
– Faz tempo que estou a buscar. Ao te ver, pensei: acabou, achei.
– O encontro não se dá no ver.
– então como saberei que encontrei?
– O encontro se dá no sentir.
– Sentir é como a dor?
– Pode ser. Mas o sentir do encontro de tua busca não será dor. Será prazer.
– Isto eu não entendo também. Só sei que gosto de minha vó, ela é estranha. Ela reza. Gosto também de meu vô, ele é diferente. Fica quieto sentado. E lê. Bom mesmo é brincar com o cão, quando me vê, balança o rabo, rebola-se todo, parece que vai quebrar-se em pedaços. Nós brincamos com o lago, a estrada e o rio. Só temos medo é do velho João. Para onde vais?
– Para frente.
– E quando acabar a estrada?
– Ela não acaba. Nós sempre a estamos construindo.
– O que comes?
– O alimento da vida.
– Eu não. Como arroz, batata e feijão.
– Quando tem, eu também.
– Lá em casa tem. Queres ir?
– Obrigado, não posso. Está acabando o tempo.
– O que é esse tempo que está acabando?
– É o agora que já passou e ainda será.
– Confuso isto. Eu gosto de tempo bom, posso sair e brincar, correr e nadar. Com tempo de chuva, devo ficar dentro de casa.
– Desculpe garoto, preciso ir.
– Vou te ver novamente?
– Não deixarás de me ver.
– Como, se vais partir?
– Partirei, mas não deixarei de estar contigo.
– Como assim, não entendo.
– Ficarei em tua lembrança.
– O que é lembrança?
– Lembrança é a memória do coração.
Ficamos sentados. Parecia que estávamos vendo o peregrino partir. Tinha algo de garoto em nós, quantas perguntas sem resposta, quanta busca sem encontro, a lembrança desse momento, certamente seria a memória de nosso coração. Olhamos para a escritora que, sentada ainda, envolta por uma radiosa luz de paz, sorria para nós e, antes que pudéssemos reagir por nós mesmos, levantou-se e convidou-nos para que, em outro ambiente, […] 

*** 

Capítulo VI

O Músico
O sexto capítulo de O Sarau é o menor capítulo da obra de Stuepp, entretanto, não menos importante. Aqui somos convidados a entender a importância da socialização através do lazer e da confraternização uns com os outros, e a entendermos que a alegria faz parte da vida. A lente do autor mostra uma vida bem focada na interação entre os seres  humanos, que encontram o prazer na diversão, enquanto aprendem e promovem a cultura e a arte. 
Austri Junior 


[…] Olhamos para a escritora que, sentada ainda, envolta por uma radiosa luz de paz, sorria para nós e, antes que pudéssemos reagir por nós mesmos, levantou-se e convidou-nos para que, em outro ambiente, tivéssemos o prazer de receber a contribuição do músico.
   Fomos até um espaçoso hall de distribuição que dava em uma escada. Lá em cima, vimos novamente o Sr.Faz tudo, agora dedilhando um sonoro e ritmado teclado. O músico pediu licença, subiu e, após alguns minutos, começamos a escutar um som sensual, harmonioso e forte. O músico brindaria o encontro acompanhado pelo teclado, com um saxofone.
   A música escolhida vinha bem para o momento. Era um blues envolvente, daqueles vindo do fundo da alma. O som vinha acompanhado de sentimento. Era denso.
   Como estávamos de pé a olhar, boquiabertos para o músico lá em cima, a escritora convidou-nos a aproveitarmos o momento e dançar. Fiquei um pouco constrangido, pois a dança não é dos meus fortes, mas o convite e o momento eram tão especiais que logo estávamos a transformar em movimento o som que emanava tão maravilhosamente. Ficamos assim durante um bom tempo, pois o músico tocou um pout-pourri espetacular, deixando-nos quase extasiados. Quando já estava mais para encontrar uma cadeira onde sentar do que continuar a dançar, vi o músico ao meu lado, e, ajoelhando-se, terminou sua apresentação. Houve um momento de assobios e urras. Sentamo-nos todos no chão e, apesar de estarmos numa noite fria de inverno, estávamos a abanar-nos, pois os movimentos de nossa dança pareciam que tiveram o efeito de uma longa caminhada, só que uma caminhada não muito comum. Pelo semblante de todos, via-se que a caminhada tinha sido não em uma simples estrada, a caminhada tinha sido através de nossos sonhos.
   Aproveitamos para fazer mais um pequeno intervalo, voltando para a sala do início de nosso encontro. Tomamos mais um pouco de vinho, degustamos mais petiscos e, mesmo fora do programa até piada apareceu. Rimos bastante, para mim, parecia uma noite incomum, destas a fazer história em nossas vidas.
[…]



Capítulo VII

O Filósofo

A postagem desse sétimo (e último) capítulo de O Sarau, eu dedico à Thais Stuepp, pequena guerreira, lutando em favor de sua própria vida, como prova de amor incondicional à ela e a toda a família Stuepp, em especial, a seu avô, Leonardo, autor dessa obra maravilhosa. Mas, muito mais que um autor talentoso, um homem dedicado à sua família, e um avô,como os de “antigamente”: que não se fabricam mais. A Graça, a Paz, o Amor e a Misericórdia do Pai, do Filho e do Santo Espírito sejam com todos vos Stuepp(s).
Aos Stuepp, todo o meu amor e carinho. Força e coragem!
Austri Junior 



– O nosso encontro está maravilhoso, abençoado mesmo. É uma alegria poder estar com todos vocês aqui, vamos agora poder conhecer um pouco do nosso convidado. chegou o momento de ouvir o Filósofo – assim falou a Escritora.

– É difícil para mim, continuar, após esses momentos de profunda reflexão e rara oportunidade de vivência com pessoas tão maravilhosas. Gostaria de pedir que me acompanhassem até o jardim de inverno e lá, podendo contemplar o firmamento, ao som daquela pequena fonte, direi o que, para mim, é ser filósofo.  


– Ser filósofo, não é ser uma pessoa que vive nas nuvens, dizendo coisas ininteligíveis. Ser filósofo não é só, como literalmente o termo quer dizer (filos=amigo e sofia=sabedoria),  ser amigo da sabedoria. Ser filósofo, para mim, é buscar.
Buscar, no âmago de si mesmo, a verdade de sua existência.

[…] Historicamente, temos as respostas encontradas pelas sociedade, enquanto povos, e pensadores, enquanto pensadores, enquanto indivíduos. Após muito ler, muito pensar e muito sonhar, deixei-me seduzir pela certeza de que não sou por mim mesmo, Sou o desejo de alguém. Muito mais que um fugaz momento de amor entre os meus pais, eu sou a vontade de alguém que me pensou e, (o que me encantou) me amou, me ama, me amará eternamente. Aceitei assim a presença, ou melhor, a existência de um Ser superior. Para mim, é inquestionável a existência de Deus. Restava entender como eu seria após essa conclusão, encontrei a seguinte relação. Acreditando na existência de Deus, eu estava acreditando na existência da vida e, senti então, que a minha existência, como a existência de todo o Universo, era o resultado de um amor. De uma união. Eu sou o resultado do amor de Deus pela vida. A minha vida começou a ter sentido ao saber que o amor de Deus por ela me gerou. Em aceitando a existência de Deus, eu comecei a aceitar a minha existência e, aceitando ambas, entendi que somos gerados pelo amor de Deus pela vida.

   Se, sou gerado pelo amor de Deus pela vida, entendi e senti o “por que sou” de eu existir, a questão agora é por que continuar a existir. A relação continua. Se, sou o resultado de um profundo amor de Deus pela vida, tenho em mim a chama deste amor pela vida também. Então o porquê de continuar a existir é um tornar-se instrumento desse amor e, permitir que a partir de mim possa gerar-se mais amor, não só na procriação, no nascimento de um novo ser, mas também e, em especial, através do amor, gerar as transformações, para que possamos todos encontrar esse momento sublime, só seu da filiação. Filiação de um Pai bondade, sabedoria e amor e uma mãe certeza, carinho e força.

 

   Nesse momento, ao terminar minha participação, todos olhando para o firmamento, vimos um estrela cadente e, cada qual, abrindo seu livro da vida, sentiu que tudo que tivemos oportunidade de participar nesta noite, a verdade que nos envolveu, foi a certeza da vida.

 

– Sinto muito dizer, mas este momento incomum em nossas vidas terminou, mas como todo fim é um começo, tenho certeza que, a partir de agora, começamos com nova energia o trabalho para alcançarmos os nossos propósitos. – Falou a escritora.

 

   Obrigado mais uma vez pela presença de todos e aguardem o convite e instruções para o próximo encontro.


Estes são trechos transcritos do conto O Sarau, uma obra de Leonardo Stuepp. O livro é composto por sete capítulos. Cada capítulo é um conto, que se entrelaçam entre si , dando sentido a essa pequena grande obra. A narrativa coerente  liga um capítulo ao outro, e torna o texto atraente e inteligente, vinculando os assuntos e criando uma conexão entre os personagens, e com todo o conjunto literário.
Austri Junior


*Leonardo Stuepp,
Escritor, Professor, Palestrante

Adquira o livro e leia os contos na íntegra. Sem dúvida, uma leitura maravilhosa.
Contatos com o autor: leonardo@educacionalproative.com.br

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