Tecnologia X Analfabetismo

Estive hoje pela manhã em uma Unidade de Pronto Atendimento – UPA, inaugurada há poucos meses no município de Serra-ES, onde resido. Lá pude observar um atendimento de “primeira classe:” O paciente ao chegar na unidade, depara-se com uma maquina eletrônica, onde ele toca na tela e o computador dar as opções de atendimento, então o paciente toca na tela outra vez, na  opção de atendimento de que necessita, e a máquina emite uma senha com um número e a opção de consulta desejada. Fiquei ali a observar cada um que chegava, enquanto esperava a minha vez –  Um monitor que pendia do teto, emitia o som e mostrava o número da sua senha.
Enquanto observava a maneira como as pessoas – em sua maioria muito simples – se relacionavam com a tecnologia, ao mesmo tempo que admirava o progresso chegando à saúde, alcançando o povo. Foi então que me ocorreu o seguinte pensamento: “E quando chegar uma paciente analfabeto, ou semi-analfabeto, como será que vai lhe dar com isso?”
Mal acabei de pensar, chegou um homem caucasiano aparentando 50 a 55 anos, e pediu informação sobre o atendimento. A recepcionista disse-lhe:
– Senhor, toque na tela.
Ele olhou para um lado e para o outro e perguntou-lha:
– Qual tela?
– Essa aí em sua frente, senhor. Respondeu-lhe.
Ele olhou a tela e ficou meio atônito. Então a recepcionista lhe disse:
– Senhor, toque no canto da tela!
Enquanto aquele homem tentava processar as informações da recepcionista, a fila para “tocar na tela” crescia atrás dele. A recepcionista tornou orientá-lo:
– Toque no canto da tela senhor!
Aquele homem totalmente simples, retrato do povo, começou a ficar com a face rubra e começou também a rir, todo sem graça. Tocou na tela, mas tocou no local errado. A moça disse então:
– Senhor, toque naquele cantinho ali. Ele então tocou no local certo, e instantaneamente, a maquina lhe ofereceu duas opções: Clínico Geral e Odontologia. Então a recepcionista tornou a orientá-lo:
– Senhor, agora toque  em Clínico Geral!
Foi aí que a coisa piorou. Ele olhava daqui, olhava dali, tocava em um local, tocava em outro, e nada. Enquanto isso a fila crescia. Nessa hora, a moça que  estava tentando fazê-lo compreender os procedimentos tecnológicos daquela “geringonça” moderna, perdeu a paciência, e gritou com o homem, apontando o local exato onde ele deveria tocar. Foi então que ele disse, também em um tom mais alto, como a pedir socorro e desculpas, tudo ao mesmo tempo:
– Eu não sei ler!!!
Aquela frase dita com tanta vergonha, emitida num grito de desabafo e justificativa me “cortou o coração”. A recepcionista ficou desconcertada, um peso invadiu a recepção, e a recepcionionista começou a pedir desculpas:
– Desculpa senhor, desculpa! Eu não sabia, me desculpa, eu não sabia!
Foi nesse momento que de onde estava, num ímpeto impulsivo, eu disse para uma senhora que estava atrás dele:
– Ajuda ele aí!!!
A mulher tocou na tela, e a máquina emitiu a tão desejada e demorada senha. A fila começou a andar.
*Amanhã voltaremos a conversar sobre Tecnologia e Analfabetismo.
Austri Junior
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