Messianismo em um mundo destroçadoTestemunhas do Futuro-Pierre Bouretz

Em Testemunhas do Futuro, Pierre Bouretz discute, em seu contexto histórico e biográfico, as obras de grandes pensadores judeus da modernidade, dentre os quais Hermann Cohen (1842- 1918), Franz Rosenzweig (1886-1929), Walter Benjamin (1892-1940), Gershom Scholem (1897-1982) e Martin Buber (1878- 1965). Formados pela fecunda intersecção entre cultura humanística alemã e pensamento judaico, são autores que, de uma forma ou de outra, defrontaram-se com a falência das promessas de uma época em que se imaginava testemunhar uma marcha triunfal da história, sustentada pelo domínio da razão, que no entanto conduziu às catástrofes do século 20, que dele fariam o lugar de sepultamento do futuro. Os filósofos abordados por Bouretz, porém, perseveram na dimensão utópica e a reintroduzem em suas reflexões sobre a história num mundo desencantado, o que confere às suas filosofias o traço comum do messianismo.

Por Luis S. Krausz*

Benjamin, o mais influente do grupo na atualidade - Reprodução/AE
Reprodução/AE
Benjamin, o mais influente do grupo na atualidade

A obra de pensadores judeus modernos – como Walter Benjamin, Gershom Scholem e Martin Buber -, expressão de um olhar utópico numa época de caos, é o tema de ‘Testemunhas do Futuro’, de Pierre Bouretz

A questão dos estados nacionais, e em particular a crise de identidade alemã, associada ao seu processo de unificação, é o pano de fundo das reflexões de Hermann Cohen, pertencente a uma geração debruçada sobre os dilemas concernentes ao lugar dos judeus de uma Europa moderna, que não mais os confinava a guetos. Cohen foi sistematizador do monoteísmo ético e buscou por imperativos universais que permitissem uma vida digna em sociedade. Comprometido com a justiça de um sistema de valores de raiz bíblica, advogava a fusão entre germanidade e judaísmo, opondo-se à visão da reforma judaica, que apontava para a integração à nacionalidade alemã e para o abandono de especificidades, crenças e costumes. Revoltado com uma emancipação que trazia consigo a transformação do judaísmo em mero objeto de estudo histórico, sem relevância para a vida moderna, reavaliou as fontes judaicas para fazer delas portadoras de uma ética passível de reconciliação com o idealismo alemão, e para estabelecer fundamentos éticos “humanos” capazes de fazer da cultura ocidental a sede de uma vocação messiânica, doravante não mais exclusiva dos judeus. O messianismo de Cohen, cuja obra máxima leva o título de A Religião da Razão extraída das Fontes do Judaísmo, insere-se, portanto, num projeto de redenção universal, promessa que a 1.ª Guerra Mundial, por ele testemunhada, não tardaria em desmentir.
Já o caminho percorrido por Franz Rosenzweig, que foi aluno de Cohen, partiu da aridez desse mesmo judaísmo alemão emancipado e fundamentado na hegemonia da razão para um movimento de assimilação à sociedade cristã. E daí, depois de uma experiência mística nas trincheiras da 1.ª Guerra Mundial, à redescoberta das doutrinas judaicas. Buscou conciliar a filosofia de Hegel com a crença absoluta na Revelação como caminho para a redenção do mundo – que se torna, em seu pensamento, conforme formulado em A Estrela da Redenção, o propósito máximo do judaísmo. A partir daí, sua vida passa a gravitar em torno de uma religiosidade existencial, fundamentada no reconhecimento das experiências do inexplicável, e afasta-se do racionalismo e do idealismo filosófico ao mesmo tempo em que retoma o tema profético da ligação do povo de Israel com a terra de seus ancestrais.
Martin Buber, que colaborou com Rosenzweig numa notável tradução ao alemão da Bíblia Hebraica, esteve entre os primeiros autores a desafiar a opinião predominante entre os europeus “civilizados” a respeito dos judeus do Leste da Europa, e em particular a respeito daquela figura sobre a qual se projetavam todos os estereótipos de barbárie e superstição, o Hassid ou seguidor de um rabi milagroso, contra a qual invectivou o judaísmo ocidental do século 19, vendo nele a antípoda da Bildung e da civilização. Nascido em Viena, Buber foi criado pelo avô em Lemberg (hoje L’vov, Ucrânia), na Galícia austro-húngara, então posto avançado do iluminismo judaico no Leste do Império, sede de uma universidade de língua alemã, mas também localidade em que a tradição dos pietistas emanava das inúmeras aldeias judaicas circundantes, cada qual com sua corte hassídica. Seu avô era defensor do ideário iluminista e, sintomaticamente, a primeira edição de lendas hassídicas, intitulada Histórias do Rabi Nachman, compilada por Buber e publicada em 1906, trazia a seguinte dedicatória: “Ao meu avô, Salomon Buber, o último mestre da antiga Haskalá, dedico este trabalho sobre o Hassidismo com respeito e amor”.
Buber propõe aqui uma transcendência da polaridade entre iluministas e pietistas, que traduz seu empenho pela criação de uma nova especificidade judaica num momento em que, na Alemanha e na Áustria, despontava o interesse generalizado por misticismos, fenômenos religiosos e tradições extáticas. Se o fin de siècle e o esgotamento provocado por uma cultura da “normalidade” foi pródigo em vertentes espiritualistas que buscavam recuperar o entusiasmo e a alegria de viver, a influência de Nietzsche marcou esta ânsia pelo místico e pelo mitológico, na qual Buber insere seu mergulho no universo de uma corrente panteísta e mesmo dionisíaca do judaísmo, que ele verá não mais como apostasia, conforme a visão da reforma judaica tanto quanto da ortodoxia escolástica, mas como pura expressão de religião viva e de um romantismo tardio, compreendido como antídoto para a náusea da civilização.
Dos pensadores abordados neste estudo, Walter Benjamin certamente é o mais influente na atualidade e o capítulo a ele dedicado destaca a influência de tradições do judaísmo sobre seus escritos. Segundo seu amigo e correspondente Gershom Scholem, Benjamin lutou para conciliar as heranças contraditórias da cultura alemã e judaica e, se tinha o intuito de desviar-se do universo europeu para dar curso aos estudos judaicos, projetando, inclusive, mudar-se para o que era então o embrião do Estado de Israel nos anos de avanço do nazismo na Alemanha, nunca conseguiu desvencilhar-se dos temas franceses e alemães, que o prenderão emocional e fisicamente ao seu continente de nascença e o ocuparão até o momento de sua morte trágica quando tentava escapar da França de Vichy e da deportação. Sua atração pelo marxismo, e ao mesmo tempo pelo messianismo, faz de seu pensamento uma arena onde se confrontam as dimensões da teologia e da política, parcialmente reconciliadas pela ideia judaica de que a organização da sociedade humana é capaz de propiciar a chegada da redenção. Pensador metafísico numa era em que a Europa dava as costas à filosofia, Benjamin viveu preocupado com a busca pelo resgate da experiência original. Foi um estrangeiro no mundo e no tempo, lançado do século 19 para o século 20 como a um país estranho. Seu desprezo pela sociedade burguesa, sua busca pela religião como ordem suprema e sua escuta poética do mundo lhe proporcionaram uma vida de “vitórias de pormenores às quais correspondem derrotas em grande escala”. Mas legaram à posteridade interpretações da cultura contemporânea sempre atuais, e de espantosa lucidez.
O mais notável dos redescobridores das tradições ocultas da história judaica, Gershom Scholem, veio, igualmente, de um ambiente marcado pelos constrangimentos impostos aos judeus desejosos de integração na cultura alemã. Libertou-se do mundo sufocante de seus pais para mergulhar de cabeça numa trajetória de pesquisa acadêmica de absoluta originalidade, junto à recém-criada Universidade Hebraica, em Jerusalém, onde chegou em 1923 para logo dedicar-se ao estudo de tratados místicos hebraicos vindos de todos os cantos da diáspora judaica, trazidos por gente que vinha à cidade para orar, estudar e morrer. Seu entusiasmo acadêmico por um aspecto da tradição desprezado pelos velhos sábios do racionalismo alemão teve como contrapartida o convívio com os pioneiros do sionismo, sobretudo vindos da Rússia e da antiga Galicia austro-húngara. Completava-se, assim, o périplo que teve início quando o jovem Scholem deixou a casa paterna em Berlim para mudar-se para a Pensão Struck, onde conviveu com intelectuais recém-chegados da Europa do Leste – dentre os quais o escritor e futuro prêmio Nobel S.Y. Agnon – cuja cultura ele vira como essência de um judaísmo vivo, capaz de fazer reviver o esqueleto de um judaísmo transformado em tradução de um mundo burocratizado.
O volume (de 1.200 páginas!) traz, ainda, capítulos extensos dedicados a Ernst Bloch (1885-1977); Leo Strauss (1899- 1973); Hans Jonas (1903-1994) e Emmanuel Lévinas (1905-1995). É uma muito bem-vinda e muito bem editada aproximação ao pensamento de criadores de filosofias judaicas contemporâneas, que funciona como introdução e comentário a um vasto corpus, composto sob o signo da convicção de que o judaísmo tem algo a contribuir para o avanço e para o aperfeiçoamento do mundo. E de todos seus habitantes.
Tradução como busca da linguagem do jardim do éden
Um dos múltiplos aspectos da obra de Walter Benjamin destacados por Pierre Bouretz é sua teoria da tradução, atividade que ele vê como um gesto no sentido da reparação da linguagem original, adâmica. Transitar entre idiomas seria, assim, uma oportunidade para passar mais perto da sede perdida da língua original, o que significaria se aproximar das origens do mundo espiritual. Atribuir tal status a uma tarefa muitas vezes vista como uma atividade menor é algo que Benjamin fez em um de seus ensaios de juventude, A Tarefa do Tradutor, publicado pela Editora 34, em tradução de Susana Kampff Lages e Ernani Chaves, no volume Escritos sobre Mito e Linguagem, organizado por Jeanne Marie Gagnebin. Exemplo da escrita deliberadamente difícil do autor, este ensaio antecipa muitos dos polos em torno dos quais gravitará seu pensamento.

* LUIS S. KRAUSZ É ESCRITOR E PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA E JUDAICA NA USP

29 de Outubro de 2011 | 6h 00

Fonte: ESTADÃO.COM.BR/CULTURA
 http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,messianismo-em-um-mundo-destrocado,791926,0.htm

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